Assim se escrevia, em caracteres gregos, (a lingua do Novo Testamento), o nome da igreja de Jesus, no tempo dos apóstolos: Ekklesia Iesous Cristos (Assembléia de Jesus Cristo).

"Antes crescei na graça e no
conhecimento de nosso Senhor
e Salvador Jesus Cristo"
(II Pedro 3:18)
 
 
 
   

AS TRADIÇÕES NA IGREJA
                                                        Beresford Job (*)

 

     É espantoso constatarmos, embora seja um fato patente, que o conflito de Jesus com Israel e, em particular com os líderes religiosos israelitas, não era sobre a lei mosaica.  Jesus manteve o Antigo Concerto rigorosamente e, afora a tentativa de embaraçá-lo com o episódio da mulher pega em adultério, todos os que contenderam com Ele o fizeram por outras razões. O que os enraivecia tanto não era que Ele transgredisse o que estabeleciam as Escrituras do Antigo Testamento (o que Ele obviamente não fez), mas que Ele desafiasse e se colocasse contra o que eles chamavam de tradição dos anciãos.

    Lemos no Evangelho de Marcos que “foram ter com Jesus os fariseus e alguns dos escribas vindos de Jerusalém e repararam que alguns dos seus discípulos comiam pão com as mãos impuras, isto é, por lavar”. (Nenhum fariseu ou qualquer outro judeu  comia sem cumprir o ritual de lavar as mãos, observando a tradição dos anciãos. Da mesma forma, nada comiam, que tivesse vindo do mercado, sem antes lavar. Havia ainda muitas outras tradições, respeitantes à lavagem de copos, potes e vasilhas de bronze). Assim, os fariseus e escribas perguntaram a Jesus: “Por que não andam os teus discípulos conforme a tradição dos anciãos, mas comem o pão com as mãos por lavar?” (Marcos 7:1-5). O que acontecia, na realidade? A resposta é que, embora na teoria Israel considerasse as escrituras do Antigo Testamento sua autoridade final em matéria de fé e de prática, a realidade era um pouco diferente. Os judeus realmente prestavam maior obediência ao sistema de ensinos e práticas conhecidos como “Tradição dos Anciãos” ou “Lei Oral”.

     O judaísmo farisaico ensinava que, quando Moisés esteve no Monte Sinai, Deus lhe deu não apenas um, mas dois conjuntos de leis. A lei escrita, ou Lei Mosaica, foi registrada nas páginas do Antigo Testamento. Porém, uma segunda (e secreta) lei lhe foi transmitida oralmente e assim deveria ser repassada às gerações futuras. Alegadamente, essa lei secreta só se tornou pública nos anos precedentes à vinda de Jesus. Quando o inevitável conflito entre essas duas leis e o que elas ensinavam se apresentou, Israel eventualmente teve que decidir qual delas seria sua autoridade final. Pode ser que, afinal, alguém possa dizer que tem duas leis como sua autoridade final (no caso, o Antigo Testamento e a Lei Oral) mas, na realidade, terá apenas uma delas nessa posição, e será a ela oferecida obediência, quando emergirem as contradições entre as duas. É incrível, mas Israel optou pela Lei Oral e relegou a segundo plano a Lei Mosaica e, desse modo, também as escrituras do Antigo Testamento. Aliás, os fariseus ensinavam descaradamente que era mais merecedor de punição quem agia contra a tradição dos anciãos do que contra as escrituras do Antigo Testamento. 

     Precisamos entender que, no tempo de Jesus, a nação de Israel vivia sob a autoridade de um sistema de ensinos e práticas que, em muitos e importantes aspectos, eram radicalmente contrários a ensinos e práticas estabelecidos no Antigo Testamento. Argumentavam, justificando esse procedimento, que haviam sido orientados nesse sentido por Deus, pois supostamente Ele mesmo havia dado a Lei Oral a Moisés. O sistema de ensinos e praticas meramente humanos, criados pelo homem, havia então usurpado e substituído a verdade revelada da palavra escrita de Deus. A justificativa era a de que, embora contradizendo as Escrituras do Antigo Testamento, aqueles ensinos e tradições, não obstante, haviam sido recebidas diretamente do Senhor em pessoa.

     Porém, se nos perguntarmos o que o Deus de Israel ensinou acerca da (supostamente) inspirada Lei Oral, tudo o que temos a fazer é observar as respostas de Jesus a esse respeito: “Respondeu-lhes: Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim; mas em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. Vós deixais o mandamento de Deus, e vos apegais à tradição dos homens” (Marcos 7:6-8).

      Hipocrisia! Esse foi o claro e firme veredicto do Senhor sobre as tradições que foram a causa de Seu povo haver se voltado contra as tradições inspiradas e reveladas na Palavra de Deus. Apegar-se às práticas meramente humanas, quaisquer que sejam elas e opor-se às práticas bíblicas é, de acordo com o Senhor Jesus, “abandonar os mandamentos de Deus”.

      Penso que você concorda que este é um assunto sério e até posso imaginar o tipo de reação dos leitores: ”Amém, irmão! O que Israel fez foi terrível!”. “Imagine só – Israel indo contra a Lei Mosaica em favor dos ensinamentos e práticas criados pelo home e das tradições meramente humanas! Não espanta que Deus os tenha julgado!”. “Como? Abandonar os mandamentos de Deus por tradições humanas? Isso é inimaginável!”. Pois é, eu tenho a dizer que, por virtualmente dois milênios, nós cristãos temos feito exatamente a mesma coisa!

     É difícil aceitar essas palavras. Porém, sem dúvida,  isso é verdadeiramente um fato: quando se trata de nossa experiência de vida como igreja (me refiro às nossas tradições) ou de práticas estabelecidas, que a maioria dos cristãos segue e implementa inquestionavelmente, virtualmente tudo é baseado num sistema de práticas que, como as tradições dos anciãos de Israel, nada têm  a ver com a Palavra de Deus. Longe de ser o que vemos nas páginas do Novo Testamento, isso se originou e foi implementado por homens que surgiram em cena depois dos apóstolos de Jesus haverem morrido e, por conseguinte, depois de completados os escritos desse mesmo Novo Testamento.

     É muito importante que entendamos que essas tradições não apenas são diferentes do que vemos nas Escrituras, no sentido de simples variações, mas são o oposto do que encontramos no Novo Testamento. Distante de representarem simples desenvolvimentos com os quais as práticas bíblicas são aplicadas em ligeiramente diferentes circunstâncias e condições, ao contrário, elas são práticas que, não apenas não são encontradas em nenhum lugar do Novo Testamento, mas estão em completo desacordo com o que nele se ensina e vai contra ele em virtualmente todos os aspectos possíveis. Essas práticas direcionam aos que a elas aderem a irem completa e diretamente contra o que revela a Palavra de Deus e a acolherem as próprias coisas que Jesus aberta e insistentemente condenou.

     Agora, vou fazer algumas observações que nenhum comentarista, estudioso ou historiador bíblico, que valha o sal que comeu, poderia contestar. O que vou afirmar diz respeito às maneiras através das quais as igrejas nos  tempos do Novo Testamento foram estabelecidas e organizadas, de acordo com as tradições legadas pelos apóstolos de Jesus e que são  reveladas em seus escritos – o próprio Novo Testamento. Vou simplesmente descrever, da forma que está revelado nas páginas das Escrituras, o que ocorria quando um grupo de crentes se reunia como igreja. E, mais uma vez, desejo enfatizar este ponto: revelado de uma maneira tão clara que, como já afirmei, nenhuma pessoa versada na Bíblia poderá contradizer.

     Voltemos ao passado, à metade do primeiro século e vislumbremos como era a igreja nos tempos do Novo Testamento. A primeira coisa a dizer é que, quando algum  crente se dirigia a alguma reunião da igreja a que pertencia, tinha que ir, infalivelmente, à casa de alguém. Os números deveriam então ser pequenos e esse crente deveria ser parte de um grupo reduzido e íntimo de pessoas que o conheciam muito bem e às quais ele também conhecia profundamente. A melhor maneira de resumir uma definição disso seria: uma família ampliada. O espírito das reuniões seria, sob todos os aspectos, o de intimidade informal. Quando esse crente se reunia com seus irmãos e irmãs, duas coisas poderiam acontecer:

Primeiro
, embora isso não implique em nenhuma ordem cronológica, havia um tempo de compartilhar, durante o qual todos eram livres para participar da forma que sentiam que o Senhor os estava dirigindo. Podia ir de um canto de louvor a uma oração de intercessão; de oferecer um ensinamento, a trazer uma profecia; de partilhar uma palavra de conhecimento ou de sabedoria – todos eram livres para participar. Ninguém dirigia os trabalhos. Além do mais, se estavam todos numa sala, com todos sentados frente e frente, ao redor do aposento, ao contrário de estar em fileiras simplesmente olhando, por trás, a nuca de alguém, não havia mesmo uma “frente” da qual se pudesse dirigir a reunião. Tudo tinha uma natureza livre, espontânea, não estruturada e dirigida pelo Espírito Santo. A atmosfera era de louvor, reverência e alegria informal.

Segundo
, todos os presentes deveriam tomar uma refeição juntos. De fato, deveriam fazer a principal refeição do dia juntos. Parte dessa refeição deveria ser um pão e um copo de vinho que todos partilhavam em comum, com isso relembrando à igreja reunida que Jesus era o convidado de honra e que, embora fosse apenas uma refeição comum compartilhada, esse era um alimento muito especial: a Ceia do Senhor. Essa Ceia do Concerto, de crentes individuais reunidos como igreja, deverá marcar a todos como uma família de Deus ampliada, em qualquer aérea que ela esteja localizada.

     Existe algo mais que também devemos observar: qualquer tipo de liderança existente não era ostensiva,  ficando longe do primeiro plano e ocupando sempre o fundo do cenário. Além do mais, liderança deveria ser sempre funcional e, de nenhuma maneira, ser entendida como sendo posicional, com títulos e coisas assim. Além disso, ela era sempre plural. Qualquer idéia de apenas um homem estar na direção de uma igreja seria completamente estranha aos que congregavam. Os líderes deveriam ser todos originados nas igrejas nas quais congregavam. Elas eram líderes “feitos em casa”, irmãos locais, que todos conheciam extremamente bem. Como designação (embora não como títulos oficiais), esses homens foram chamados às vezes de anciãos, às vezes de supervisores ou ainda de bispos (dependendo de qual tradução da Bíblia você estiver lendo) ou pastores (novamente, dependendo da tradução), todos sinônimos para designar a mesma pessoa. Aqueles com outros ministérios (apóstolos, profetas, mestres, etc.) poderiam, às vezes, emprestar sua colaboração, como convidados, porém eles eventualmente iriam para outras localidades desenvolver o mesmo trabalho. A única liderança permanente na igreja eram esses irmãos anciãos desenvolvidos na própria igreja. Eles asseguravam que o formato das assembléias seria de participação aberta, espontânea e livre. Eles garantiam também que a direção das assembléias, partida de um púlpito ou algo parecido, era a última coisa que eles desejariam, pela simples razão de que haviam aprendido com os apóstolos de que esta não era a vontade de Deus.

     Assim eram as reuniões, de acordo com os ensinos e as tradições dos apóstolos, reveladas nas páginas do Novo Testamento. Agora, por favor, sublinhe em vermelho, o que já escrevi antes: nenhum comentarista, estudioso ou historiador da Bíblia, que valha o sal que comeu, poderá questionar essa descrição de forma significativa. Eu simplesmente evidenciei coisas que, simplesmente como fatos, podem ser vistas no Novo Testamento. As Escrituras revelam apenas uma forma recomendada, através da qual os crentes foram ensinados a se reunirem como igreja e fazer as coisas necessárias a isso. E hoje, como fazemos as coisas quando nos reunimos como igreja? (De fato, como os cristãos têm feito isso através de toda a história da igreja?). Como evidenciei anteriormente, nós não só apenas fazemos as coisas diferentes, nós fazemos as coisas exatamente ao contrário do que é preconizado nas Escrituras!

     Para começar, nós nos reunimos em grandes números em edifícios públicos. Deixe-me perguntar: isso é simplesmente uma variação de reunir-se em pequenos números, em residências privadas? Não, isso é exatamente o contrário!

     Segundo, nós realizamos cultos dirigidos do púlpito (usualmente) por profissionais assalariados, positivamente assegurando que todos não têm a liberdade de compartilhar o que o Espírito proporciona a cada um. Diga-me, isso é meramente uma variante de uma reunião aberta e inteiramente participativa, sem direção do púlpito e com ampla liberdade para todos participarem? Não, é exatamente o oposto!

     Terceiro, (e nós sabemos que nas igrejas do Novo Testamento nada existe que se pareça, ainda que vagamente, com os cultos de hoje - ou “serviços religiosos”), nós fazemos, a períodos que variam de acordo com as preferências de cada denominação, um ritual de distribuição de um pedacinho de pão e uma minúscula porção de suco de uva, como sendo a Ceia do Senhor. Novamente pergunto: seria isso uma variação da refeição completa e coletiva, complementada pelo pão e o vinho, como a Ceia do Senhor descrita no Novo Testamento? Não, isso é uma coisa totalmente diferente, mais uma vez! Isso é completamente alheio aos que os apóstolos ensinaram, que era o compartilhamento de uma refeição completa, a verdadeira Ceia do Senhor! (A palavra grega empregada nas Escrituras, para designá-la, deipnon, designa a refeição principal do dia, tomada na parte da manhã – o almoço).

     Por último, além do exposto, existem outras coisas que eu poderia ter incluído (mas que o espaço não o permite), sobre como conduzir a liderança. O que, em nossas igrejas, poderia ser oposto, nessa área, ao que é correto aos olhos do Senhor? Bem, nós produzimos uma liderança hierárquica e posicional, que usualmente trazemos de fora, na forma de um indivíduo com um título oficial de algum tipo. Realmente, o que temos feito é variar em torno do mesmo tema de ter um homem como cabeça, o qual geralmente é um profissional pago, vindo de fora. Comparo isso com a liderança não posicional e plural dos irmãos crescidos na igreja, não profissionais assalariados e pergunto de novo: seria isso apenas uma variação de algum tipo? Seria somente jogar com os extremos e mover ligeiramente as coisas? Não, é o completo oposto do que a igreja fazia e que nada mais era do que o que foi ensinado pelos apóstolos de Jesus. E de onde eles tiraram as idéias que ensinavam? Do Senhor mesmo!
Precisamos estar conscientes de qual igreja estamos falando aqui. Sejam católicos ou presbiterianos, anglicanos ou batistas, pentecostais ou metodistas, episcopais ou evangélicos livres, quando eles vão às práticas da igreja, todos eles estão similarmente baseados nas mesmas tradições e ensinamentos humanos, que surgiram após o fechamento do cânon das Escrituras. Tradições e ensinamentos esses que levam a práticas contrárias à revelada Palavra de Deus. Todas as igrejas mencionadas têm bases em edifícios, com serviços religiosos e com o ritual de pão e suco de uvas, e praticam lideranças que se afastam radicalmente do que vemos revelado nas escrituras. Em outras palavras, embora diferentes umas das outras em matéria de detalhes são, contudo, exatamente iguais no que tange às práticas da igreja, na oposição aos padrões das Escrituras do Novo Testamento.

     Os pais das igrejas primitivas (como a história denominou aos homens que lideraram as igrejas cristãs nos anos seguintes à morte dos apóstolos) fizeram muito bem e foram grandemente usados por Deus. Porém, nas coisas que analisamos, eles erraram grandemente. Eu, junto com muitos outros, estamos agora pedindo que rejeitemos e renunciemos às falsas praticas que eles introduziram (ainda que não às coisas boas que eles fizeram e ensinaram) e que também rejeitemos a herança da vida e experiência da igreja completamente anti-bíblica que, como conseqüência, nos legaram. Como deixei claro antes, ninguém que conheça os assuntos bíblicos poderia contradizer a minha descrição da vida e das práticas da igreja do Novo Testamento, em contraste com as formas como os pais da igreja modificaram as coisas. Entretanto, como já defendi antes (e é aqui que o debate se aprofunda), é que eles erraram ao nos ensinar o que pensavam sobre vida e prática da igreja e nós, da mesma forma, também erramos através dos séculos, por haver concordado com eles, esse tempo todo.

    Israel desobedeceu ao Antigo Testamento em vários pontos, em razão de sua amada, ainda que totalmente errada e anti-bíblica, tradição dos anciãos. A igreja cristã fez exatamente o mesmo, só que com a tradição dos pais das primitivas igrejas. Na Inglaterra (pátria do autor deste artigo) chamamos a isso dubiedade...  e é tempo de começarmos a fazer as coisas certas. Com quem iremos ficar? As tradições dos homens ou as tradições divinas? Deixo a você, querido leitor, decidir por si mesmo!



                                                                                     Tradução de Otto Amaral



(*) - Beresford Job
é um ancião de tempo integral da Chigwell Christian Fellowship em Essex (próximo de Londres, na Inglaterra). Ele é casado com Belinda e tem uma filha, Bethany. Beresford nasceu de novo em 1971 e logo foi levado ao ministério evangelístico. Todavia, ele eventualmente foi conduzido a uma função pastoral itinerante e de ensino e foi reconhecido como ancião de sua atual igreja quando ela iniciou em 1988. Ele foi o locutor da 1999 Southern House Church Conference. Seu web site é http://www.house-church.org
Beresford Job
37, Beaconfield Road
Epping, Essex CM16 5AR
Inglaterra

 

 
 
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