Assim se escrevia, em caracteres gregos, (a lingua do Novo Testamento), o nome da igreja de Jesus, no tempo dos apóstolos: Ekklesia Iesous Cristos (Assembléia de Jesus Cristo).

"Antes crescei na graça e no
conhecimento de nosso Senhor
e Salvador Jesus Cristo"
(II Pedro 3:18)
 
 
 
   

A Tradição Apostólica está Obsoleta?
                                                                                   Steve Atkerson (*)



     Imagine que uma igreja cristã recém inaugurada em Alexandria, no Egito, no primeiro século da nossa era, escrevesse uma carta aos apóstolos em Jerusalém. Pense que essa igreja é formada por convertidos judeus que ouviram a mensagem do evangelho em uma visita a Jerusalém e depois voltaram para Alexandria. Agora que voltaram para casa, eles não sabem ao certo o que fazer em seguida. Então, nessa carta aos apóstolos eles colocam uma série de questões sobre a vida da igreja:
“Prezados Apóstolos...

  1. Por que é que nos reunimos como povo de Deus?
  2. O que faremos nesses encontros?
  3. Quando deveremos nos reunir? No sábado?
  4. É importante o local onde nos reunimos?
  5. Devemos construir um templo como em Jerusalém? Ou, pelo menos, o prédio de uma sinagoga?
  6. Qual o tipo de governo da igreja que devemos ter?
  7. Como devem ser os líderes que procuraremos para a igreja?
  8. Precisamos mesmo de líderes?
  9. Qual é a finalidade da Ceia do Senhor?
  10. Com que freqüência devemos comê-la? Anualmente, como a Páscoa?
  11. Como devemos comê-la (qual a forma de realizá-la)?

    Como você supõe que os apóstolos, os Doze, responderiam a carta deles? Teriam eles respondido que a igreja estaria livre para fazer o que quisesse? Que cada igreja deveria apenas orar e seguir a orientação do Espírito Santo? Que cada congregação deveria ser única e diferente, livre de influências externas? Que a igreja poderia ser como um camaleão, mudando segundo as peculiaridades de sua cultura? Ou os apóstolos teriam respondido com instruções específicas, teriam informado a maneira particular de fazer as coisas, com um programa definido e com orientações inequívocas?

    Um problema enfrentado pelos crentes por de mais de 2.000 anos, diz respeito exatamente sobre o que deve ser feito acerca dos padrões de práticas da igreja. Devemos seguir esses padrões do Novo Testamento? As práticas da igreja primitiva são meramente opcionais ou são imperativas para nós? Seriam as tradições dos apóstolos apenas histórias interessantes sobre as práticas da igreja ou seriam elas algum tipo de norma?

    Nosso problema é complexo, pois o Novo Testamento fala muito pouco, no sentido de determinação direta, sobre assuntos da igreja. Hoje em dia é usual ignorar os padrões do Novo Testamento, como sendo eles opcionais. Dois homens versados na Bíblia, professores em Massachusetts, Fee e Stuart, no livro “How To Read The Bible For All Its Worth”, declaram: “Nossa pressuposição, assim como de vários outros, é que, a menos que a as Escrituras explicitamente nos digam que devemos fazer determinada coisa, o que está meramente narrado ou descrito nunca deve ser aceito como norma” (pág. 97, primeira edição). Ninguém, por exemplo, pode pretender seguir o exemplo de Jefté em Juízes 11:29 (final). A questão para nós é se as Escrituras “explicitamente nos dizem” (ou não) o que “devemos” seguir dos padrões descritos no Novo Testamento.

     Suponhamos que aceitemos a noção de que os padrões do Novo Testamento não são normativos. Onde isso poderia nos levar?

    1 . Primeiro poderíamos construir uma enorme e opulenta catedral.

    2. Poderíamos nos reunir às terças-feiras ao invés de aos domingos, o Dia do Senhor.

    3. Poderíamos nos reunir mensalmente e não semanalmente.

    4. Poderíamos optar por não termos líderes nenhum (sem pastores, sem anciãos nem diáconos), desde que em nenhum lugar nas Escrituras está explicitamente determinado que devemos tê-los.

    5. Poderíamos não ter nenhuma forma de comando da igreja, qualquer que fosse, mas poderíamos adotar a forma de governo da anarquia (cada homem poderia fazer só o que julgasse correto, segundo sua visão, em cumprimento a Juízes 21:25).

    6. A Ceia do Senhor poderia ser celebrada a cada dez anos, mais ou menos (nós não queremos que ela se torne muito comum e perca seu significado).

    7. Desde que o Novo Testamento não proíbe especificamente, nós poderíamos inflar nosso quadro de membros batizando crianças e mortos (I Coríntios 15:29).

    8. Finalmente, novos convertidos poderiam ser organizados em classes abertas de estudos bíblicos, não em igrejas oficiais (o Novo Testamento jamais determinou que devêssemos formar igrejas).

    Obviamente, essa hipotética “igreja” seria bem absurda. Porém ela, tecnicamente, não violaria nenhuma determinação taxativa das Escrituras. O que teríamos perdido seria a adesão a apenas uma parte dos padrões do NT referentes às práticas da igreja. Muitas igrejas seguem parcialmente os padrões neotestamentários, porém não todos. A pergunta é: “Porque não?”. Não é muito conclusivo discutirmos isso, neste estudo. Nós defendemos que os apóstolos tinham uma maneira definida e muito particular de organizar as igrejas e que eles tinham a intenção de que todas as igrejas seguissem esses mesmos padrões, inclusive hoje.


Manter a Tradição Apostólica é Lógico

    I Coríntios 4:14-17 revela que Paulo planejava enviar Timóteo a Corinto. Ele desejava que Timóteo lembrasse aos coríntios seu modo de vida, para que eles o pudessem imitar. (Nesse contexto, imitar a fidelidade de Paulo ao serviço do Senhor e sua humildade). Então ele escreve: “Rogo-vos, portanto, que sejais meus imitadores. Por isso mesmo vos enviei Timóteo, que é meu filho amado, e fiel no Senhor; o qual vos lembrará os meus caminhos em Cristo, como por toda parte eu ensino em cada igreja”.

     Note a uniformidade de prática que está explícita em I Coríntios 4:17 (final). O modo de vida em Cristo, de Paulo, estava concordante (“como por toda parte eu ensino”) com o que ele ensinava em “cada igreja”. Havia integridade. É um axioma da Engenharia, que a forma segue a função. O modo de vida de Paulo (a forma) estava de acordo com o que ele dizia (função) em todo lugar, em todas as igrejas. Existia uma uniformidade de prática que nasceu dos ensinamentos de Paulo. Sua crença determinou seu comportamento. Sua doutrina determinou seu trabalho. Similarmente, a crença dos apóstolos sobre a função da igreja afetava de modo natural a maneira como eles a organizavam (a forma das igrejas). Então, manter a tradição apostólica é lógico!

     Se alguém entendeu os propósitos da igreja, foram os apóstolos! Eles foram pessoalmente selecionados e pessoalmente treinados por Jesus, por um período de três anos. Além do mais, nosso Senhor despendeu quarenta dias com eles, após sua ressurreição. Finalmente, Jesus enviou o Espírito Santo para ensinar exclusivamente a eles coisas que Ele mesmo jamais ensinara (João 14-16). Assim, tudo o que Jesus ensinou aos apóstolos sobre a igreja redundou na maneira que eles usaram para estabelecê-las e organizá-las.

     Em Tito 1:5, numa passagem que trata especificamente das práticas da igreja, Paulo escreveu a Tito: “A razão pela qual deixei você em Creta foi que você poderia consertar o que ficou inacabado...” É evidente em Tito 1:5 que os apóstolos tinham uma maneira definida de como eles queriam que as coisas fossem feitas. E essa maneira não era deixar que cada igreja descobrisse sua própria forma de fazer as coisas. Havia obviamente uma certa forma de ordem, padrão ou tradição, que era seguida na organização das igrejas. Assim, em I Coríntios 11:34, Paulo escreveu: “E as demais coisas eu vos ordenarei quando for”.

     O primeiro teólogo da igreja Batista do Sul que realmente escreveu algo foi J. L. Dagg. Membro fundador da Primeira Igreja Batista de Atlanta e professor de teologia da Universidade Mercer, em Macon, Geórgia, Dagg escreveu em 1858 que os apóstolos “nos disseram, pelos exemplos, como organizar e dirigir igrejas. Nós não temos o direito de rejeitar suas instruções e ardilosamente insistir que nada, senão determinações diretas poderão nos ordenar algo. Ao invés de escolher andar de um modo concebido por nós mesmos, deveríamos ter prazer em caminhar nos passos daqueles homens santos dos quais recebemos a palavra de vida... o respeito pelo Espírito pelo qual eles foram dirigidos deveria induzir-nos a preferir suas formas de organização e governo àquelas que nossa inferior sabedoria poderiam sugerir” (Manual of Church Order, pág. 84-86).


Manter a Tradição Apostólica é Louvável


     Em I Coríntios 10:31 e 11:1 Paulo roga aos coríntios a “seguir” seu exemplo: “Façam o que façam, seja comer, beber ou qualquer outra coisas, façam isso para a glória do Senhor. Não seja causa para que alguém tropece, seja judeu, grego ou a igreja de Deus. Eu mesmo me esforço por agradar a todos, de todas as formas. Isso, por não estar procurando meu próprio bem, mas o benefício de todos, para que possam ser salvos”.

    O contexto seguinte diz respeito ao benefício de outros e como agradá-los, como forma usada por Deus para conduzi-los à salvação. A palavra “seguir” (I Coríntios 11:1) vem do termo em grego mimatai, da qual deriva a nossa expressão “mímica”. Essa sugestão de imitar a Paulo, não sendo pedra de tropeço evidentemente nos traz à mente uma situação nova que os coríntios estavam vivendo, na qual estavam se saindo muito bem: cobrir a cabeça com o véu. Assim, ele começa 11:2 com “Eu os louvo porque se lembram de mim em tudo, retendo firmemente as tradições, como as entreguei a vocês”.

    A palavra grega para “ensino” é didaskalia (origem de “didática”), mas não foi essa a expressão usada aqui. Ao invés, paradosis (“tradição”) foi empregada. Assim, a versão NASV da Bíblia (uma das traduções em inglês) traz “tradições” aqui, ao contrário de “ensinos” da versão NIV (outra versão em inglês).
(Nota do tradutor: quanto a essa passagem (I Coríntios 11:2), das várias versões existentes em português no Brasil, a João Ferreira de Almeida Revista e Corrigida usa a expressão “preceitos”, enquanto que a Revista e Atualizada traz “tradições”).

     Tradição é algo “que as pessoas fazem automaticamente”, segundo BAGD, pág. 615. O Dicionário Webster diz que ela é um padrão herdado de pensamento ou ação. Uma definição popular poderia ser essa: ”coisas que as pessoas fazem de uma forma regular, costumeira”. A mesma palavra grega (na forma verbal) é usada em I Coríntios 11:23 (“vos entreguei”), referindo-se à Santa Ceia. A principal característica de “tradição” é que ela é transmitida de geração em geração.

     A seguir, consideremos a palavra “tudo” (I Coríntios 11:2). Essa s palavra significa “tudo que existe” ou, pelos menos, “tudo o que respeita à matéria enfocada” (Dicionário Webster). Quando Paulo escreveu “tudo” (I Coríntios 11:2), o que tinha ele em mente? Como poderia “tudo” aplicar-se à ordem na igreja? O emprego da expressão “tudo” sugere que a aplicação pretendida por Paulo era maior do que a exortação vista em I Coríntios 10:31 e 11:1 (evangelismo). Ele está agora a ponto de mudar para novo assunto: as coberturas para a cabeça, ou véu.

     O que as palavras “assim como” (11:2) indicam acerca da intensidade de suas obediências às “tradições” de Paulo? Eles foram fiéis a cada vírgula – foi como que um efeito fotocópia! Paulo os louvou por manter as tradições “assim como“ (kathos) ele as passara para eles. Os apóstolos evidentemente planejaram que as igrejas imitassem as tradições (padrões herdados) que eles haviam estabelecido. O assunto particular tratado em I Coríntios 11 é o respeitante à cobertura das cabeças. Porém, a palavra “tradições” (11:2) está no plural. Paulo aparentemente tinha em mente mais de uma tradição, aquela acerca da cobertura da cabeça (Fee, pág. 500). Devemos nós manter observância a essa tradição apenas ou seguir a todos os padrões para organização da igreja que podem ser observados nas páginas do Novo Testamento?

     A legislação mosaica era paradigmática por natureza. Era jurisprudencial. Apenas um caso exemplar legal era registrado por Moisés. Esperava-se que o crente aplicasse esse exemplo modelo em outras áreas da vida não especificamente mencionadas. Por exemplo, as esquinas, ou cantos, dos campos plantados não deveriam ser colhidos, para os pobres terem o que colher e comer. Nada foi dito sobre os pomares de oliveiras. Isso queria dizer que os proprietários de outros pomares deveriam alimentar aos pobres, mas os donos de olivares não, que eles poderiam colher até a última azeitona? Certamente não. Cada agricultor, independente da cultura que praticasse, deveria deixar porção similar de sua colheita para atender às necessidades dos pobres. Similarmente, nós afirmamos que a adesão às tradições apostólicas é paradigmática por natureza. Se percebemos que os apóstolos se compraziam quando as igrejas seguiam tradições específicas (como a respeitante à cobertura da cabeça), então esperamos que se aplique esse exemplo aos outros padrões que vimos modelados pelos apóstolos no estabelecimento das igrejas.

     Um paradoxo interessante pode ser observado sobre tradição. A mesma palavra (paradosis) empregada por Paulo em I Coríntios 11:2 foi também usada por Jesus em Mateus 15:1-3. Jesus disse aos fariseus: “porque transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição?”. Surpreendentemente, enquanto que Jesus amaldiçoou a tradição dos fariseus, Paulo abençoou aos coríntios por seguirem a tradição de um apóstolo. A tradição judaica quebrou a ordem de Deus. A tradição apostólica é consistente com as determinações de Jesus. Manter a tradição dos apóstolos é, portanto merecedor de louvores, como visto pelos elogios de Paulo aos coríntios. Precisamos ser muito cuidadosos para não desenvolvermos nossas próprias tradições eclesiásticas, que podem vir a, realmente, inibir nossa capacidade de obedecer aos comandos de Nosso Senhor.


Manter a Tradição Apostólica é ser Universal

     É interessante atentarmos para a forma usada por Paulo para aquietar àqueles inclinados a ser contenciosos sobre a organização cristã. Para fazer isso, ele fez um apelo à prática universal de todas as outras igrejas: “Mas, se alguém quiser ser contencioso, nós não temos tal costume, nem tampouco as igrejas de Deus” (I Coríntios 11:16). Essa declaração pretendia impressionar as pessoas contenciosas, de forma a colocar um ponto final na questão. Está além do objetivo deste estudo analisar especificamente o uso do véu. O que ressalta é que Paulo esperava que todas as igrejas fizessem a mesma coisa. O simples fato de constatar que uma era “diferente” foi razão suficiente para calar a oposição. Obviamente a ênfase anterior fora dada a certas práticas que se supunha fossem iguais em todos os lugares ou que deveriam ser as mesmas em todo lugar. Assim, I Coríntios 11:16 mais detalhadamente aponta a uniformidade de “prática” nas igrejas do Novo Testamento.

     Em I Coríntios 14:33-34 (uma passagem sobre as reuniões da igreja), algo mais foi dito para valer para “todas” as congregações (plural): “Como em todas as igrejas dos santos, as mulheres estejam caladas nas igrejas”. Sem discutirmos a correta aplicação deste verso, perceba que Paulo apela novamente ao padrão universal, de todas as igrejas, como base para a uniformidade. Assim, I Coríntios 14:33-34 indica uma uniformidade de prática nas igrejas do Novo Testamento.

    Note ainda que Paulo censurou aos Coríntios em I Coríntios 14:36: ”Porventura foi de vós que partiu a palavra de Deus? Ou veio ela somente para vós?”. A resposta óbvia para as duas questões é “não”. A censura de Paulo nessa passagem detalha a uniformidade de prática entre as igrejas do Novo Testamento. A admoestação surge em razão de estarem sendo feitas coisas de forma diferente daquela empregada por todas as outras igrejas. Evidentemente, era esperado que todas as igrejas seguissem o mesmo padrão em seus cultos. Essas duas indagações foram feitas para trazer os coríntios de volta à linha correta. Manter a tradição apostólica (os padrões do Novo Testamento) era ser universal no primeiro século e, nós afirmamos, também o é hoje!

     O missionário mártir Jim Elliot escreveu: “O cerne da questão está em se Deus revelou ou não um padrão universal para a igreja no Novo Testamento. Se Ele não o fez, então algo deve ser feito até que funcione. Porém, estou convencido de que algo tão caro ao coração de Cristo como a Sua noiva, jamais seria deixado de lado sem instruções explícitas sobre sua conduta comunitária. Estou ainda mais convencido que o século 20 de forma alguma imitou os padrões Dele em seus métodos de congregar a comunidade como igreja... é meu compromisso, se Deus tem padrões para a igreja, encontrá-los e estabelecê-los, seja a que custo for” (Shadow of The Almighty: Life and Testimony of Jim Elliot).

     Manter a Tradição Apostólica traz a Presença Pacífica de Deus
O ponto principal de Filipenses 4:4-7 é que devemos nos regozijar no Senhor, para termos a paz do Senhor, independente das circunstâncias: “Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos. Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens. Perto está o Senhor. Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes em tudo sejam os vossos pedidos conhecidos diante de Deus pela oração e súplica com ações de graças; e a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus”.

     “Adeus” é uma forma abreviada de “Deus esteja com você”. No parágrafo seguinte de sua carta (Filipenses 4:8-9), a igreja em Filipos recebe o segredo de como ter o Deus da Paz sempre em seu meio. Por extensão, isso pode ser verdadeiro para nossas igrejas também: “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai. O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso praticai; e o Deus de paz será convosco”.

     Filipenses 4:8 é um verso popular e muito memorizado, por obvias razões. Assim, quanto mais o 4:8 é enfatizado, mais o 4:9 parece negligenciado. No 4:9 os filipenses são instruídos a colocar em prática “tudo” o que aprenderam, receberam ou ouviram de Paulo ou nele viram. Poderia esse “tudo” não incluir também o modo de Paulo organizar igrejas, como vemos no Novo Testamento? Negligenciar as tradições apostólicas é desprezar as bênçãos de Deus!

     Watchman Nee, no livro The Church and The Work: Retinking The Work, escreveu: “Atos é o ‘Gênesis’ da história da igreja e a igreja no tempo de Paulo é o ‘Gênesis’ do trabalho do Espírito... e nós precisamos retornar ‘ao início’. Apenas o que Deus estabeleceu no princípio para nosso exemplo é a eterna vontade Dele. É o padrão divino e o nosso modelo e paradigma para todos os tempos... Deus revelou Sua vontade não apenas dando ordens, mas fazendo certas coisas em Sua igreja de forma que, no futuro, outros pudessem olhar para o modelo e conhecer Sua vontade” (páginas 8 e 9).


Manter a Tradição Apostólica é Ordenado

     Em II Tessalonicenses 2:15, a igreja de Tessalônica foi instruída: “Assim, pois, irmãos, estai firmes e conservai as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa”. “Tradições” vem da mesma palavra grega, paradosis, usada anteriormente em I Coríntios 11:2. Os tessalonicenses foram especificamente orientados a seguir, a guardar, as tradições dos apóstolos, tivessem sido elas recebidas oralmente ou por escrito. Os apóstolos não estão mais aqui para nos dizer pessoalmente, de viva voz, o que fazer. Todavia, nós temos cartas que registram suas tradições (o Novo Testamento).

     Todo o contexto de II Tessalonicenses 2 se refere a eventos do fim dos tempos e não especificamente às práticas da igreja. A palavra “tradições” (2:15) está no plural, pois o autor tinha mais em mente do que meramente a tradição da Segunda Vinda. Não poderiam elas também se aplicar, em princípio, às tradições respeitantes à ordem nas igrejas, como padronizado no Novo Testamento?

     Interessantemente, no lugar de “tradições”, a NIV (uma das versões da bíblia em inglês) apresenta “ensinos”. Isso talvez ocorra porque “tradição” (em grego, paradosis, a palavra em 12), engloba o significado de “ensinos” (didaskalia) e o contexto imediato atingia as tradições orais dos apóstolos sobre o fim dos tempos (2Ts 2:1-15). Todavia, as versões KJV, ASV, RSV e NASV (todas versões em inglês) traduzem a palavra enfocada como “tradições”, que é também uma tradução válida de paradosis.

    Muitos crentes sentem que, enquanto que a tradição apostólica é interessante, segui-la não é obrigatório. Porém, o que 2 Tessalonicensses 2:15 indica sobre isso? A adesão à tradição é determinada ou apenas sugerida? Ela é claramente determinada. Isso não é apenas ensinamento apostólico, ao qual devemos aderir, mas também tradição apostólica (como revelado exclusivamente nas páginas das Escrituras). Devemos acompanhar os apóstolos, não apenas na teologia, mas também nas suas práticas.

     Atitude similar é expressa em 2 Tessalonicensses 3:6-7: “... que vos aparteis de todo irmão que anda desordenadamente, e não segundo a tradição que de nós recebestes, porque vós mesmos sabeis como deveis imitar-nos...” O contexto específico aqui se refere a trabalho recompensador versus estar ocioso. No contexto, essa tradição refere-se a praticar mais que apenas uma doutrina. Os apóstolos, de um modo geral, desejavam que as igrejas seguissem, que mantivessem suas tradições. Devemos nós limitar essas tradições bíblicas que seguimos apenas à escatologia e aos hábitos de trabalho?

     Roger Williams, fundador do estado norte-americano de Rhode Island e da Primeira Igreja Batista nas Américas (nos anos 1600), é outro exemplo de cristão que acreditava que as igrejas deveriam seguir o mais perfeitamente possível as formas e determinações neotestamentárias (Liberty of Conscience, pág. 106). Essa crença levou Williams a demitir-se do pastorado profissional para fundar Rhode Island, de acordo com o padrão do NT respeitante à separação entre a igreja e o estado.


Coerência

     Como podemos chegar a conclusões acerca do interesse de Deus em que nossas igrejas adotem os padrões do NT acerca das práticas? É evidente que o que era normativo para as igrejas do Novo Testamento deve ser normativo para as igrejas de hoje. Eu creio que foram precisamente esses padrões de práticas nas igrejas que deram àquelas do primeiro século aquele dinamismo que foi esquecido por tanto tempo!

     Se a Bíblia diretamente determina algo, então nós obviamente temos que obedecer a esse comando. E, de uma forma muito significante, a Bíblia determina obediência às tradições dos apóstolos. Se, contudo, a Bíblia silencia acerca de algo (isto é, não existe nenhuma determinação nem padrão a seguir), então nós temos a liberdade de fazer o que desejarmos (seguindo o discernimento do Espírito Santo). Então, a questão real não é: “Temos que fazer as coisas da forma que eram feitas no NT?” A questão verdadeira é: “Porque deveríamos fazer as coisas de outra maneira?”.

     O mundo romano antigo foi-se para sempre. Há uma grande diferença entre manter as tradições apostólicas versus impensadamente copiar tudo o que vemos no NT (calçar sandálias, escrever em pergaminhos, ler sob a luz de lamparinas, vestir togas, etc.) A chave é centrarmos a atenção nas práticas da igreja daquela época. Certamente devemos também evitar transformar em padrão coisas que não o eram, naqueles tempos. Por exemplo, o “comunismo” cristão de Atos 6 foi um acontecimento localizado no tempo e atingiu a apenas uma igreja. É uma opção para os crentes de qualquer época, mas não é uma determinação nem um padrão do NT. O mesmo pode ser dito do voto de Paulo, em Atos, de não cortar os cabelos.

     Quais são algumas das tradições que devem ainda ser propostas às igrejas de hoje?

  1. A Ceia do Senhor como uma refeição verdadeira.
  2. A Ceia do Senhor servida semanalmente.
  3. A Ceia do Senhor comida como a razão principal para a reunião semanal.
  4. Cultos interativos, participativos e abertos.
  5. Edificação mútua, encorajamento e comunhão como o objetivo dos cultos.
  6. Governo da igreja por consenso (orientadas pelos anciãos, mais do que dirigidas por eles).
  7. Líderes treinados localmente.
  8. Pastoreamento por anciãos, que seja masculino, não hierárquico, desenvolvido localmente e que seja eminentemente para servir.
  9. Igrejas domiciliares (pequenas congregações).
  10. Cultos regulares no Dia do Senhor (domingo).
  11. O batismo apenas de crentes.
  12. Separação entre igreja e estado.
  13. A igreja como um corpo regenerado.
  14. Presença das crianças nos cultos,
  15. Uma igreja comunitária (comunhão diária).
  16. Reprodução e apoio a novas igrejas através do ministério de obreiros itinerantes (apóstolos e evangelistas).

    O que discutimos aqui é a necessidade de um pouco de coerência. Muitas igrejas já seguem alguns desses padrões, mas não todos. A questão é: “Porque não?” Essa coerência é especialmente importante desde que os apóstolos esperavam que todas as igrejas seguissem suas tradições “assim como” eles a entregaram. Claro que Jesus deve ser o centro da igreja ou nada disso vai funcionar jamais. Seria dar murro em ponta de faca! Como Ele disse: “Fora de mim, vocês nada podem”.

     Existem exceções aceitáveis quanto a seguir os padrões do NT? Beresford Job, ancião de uma igreja de Londres (e membro ativo da NTRF - New Testament Restoration Foundation) comenta: “Precisamos estar certos de não permitirmos que desvios biblicamente permitidos das normas bíblicas, devido a circunstâncias atenuantes, acabem se tornando realmente o padrão”.Deixe-me ilustrar isso com o batismo. O batismo bíblico, assim como a tradição apostólica sobre a forma de funcionamento da igreja, é determinação do Senhor. Ainda que a forma atual não esteja ordenada pelo Senhor em lugar algum, nós sabemos isso através da forma pela qual a igreja primitiva o fazia (tradição apostólica novamente): após a conversão, sem tempo de espera e na água. (A imersão eu assumo como correta, pela tradução da palavra grega baptizo - mergulhar, submergir). Precisamos, agora com justa razão, estar preocupados com a noção de liberdade que temos de modificar esse ato, como: quem seria realmente batizado, as formas do batismo ou o momento adequado. Isso, por estarmos dolorosamente cientes de que cada um desses detalhes tem sido impiedosamente atacado pelos crentes por muito tempo. Assim, nossa posição deve ser tal que, para estar ela baseada na Palavra de Deus, a pessoa deve ser batizada após sua profissão de fé em Jesus, tão logo quanto possível e por imersão total na água. Mas, deixe-nos agora considerar o cenário de um quadriplégico acamado, sendo levado ao Senhor. O batismo, como biblicamente ordenado e exemplificado no NT, está obviamente fora de questão nessas circunstâncias. Porém, está claro também que outro modo mais apropriado de batizar a alguém tão especial quanto o quadriplégico não só estaria correto como seria aceitável por nós. Numa circunstância como essa, poderíamos tecnicamente nos afastar dos ensinos das Escrituras e permanecermos totalmente submetidos à intenção e ao espírito desta. Mas, aqui está o foco do assunto: nada do que eu acabei de afirmar pode ser aplicado à conversão de uma pessoa fisicamente perfeita; o modo normal teria que ser utilizado, de maneira a termos as coisas da maneira que Deus deseja. E tão pouco pode alguém pretender o batismo de qualquer pessoa que não tenha aceitado a Jesus pela fé, porque isso contrariaria a própria natureza do batismo, ainda que sua forma externa estivesse em concordância com as Escrituras”.

     O defensor do avivamento das igrejas Darryl Erkel aponta para o “perigo de fazer dos padrões específicos do NT uma forma de legalismo pelo qual passemos a menosprezar a outros ou a nos distanciar de nossos irmãos em razão deles não fazerem as coisas da maneira que nós pensamos que elas devam ser feitas. Precisamos ser sempre cuidadosos para não dar a impressão aos outros de suas igrejas são falsas ou que Deus não pode usá-las em razão de não seguirem os padrões apostólicos tão fielmente como nós. Isso não seria mais do que puro orgulho! Por outro lado, devemos estar alerta para oportunidades de, respeitosamente e com tato, demonstrar que existe uma maneira melhor – que é mais favorável ao crescimento espiritual do povo de Deus – de alcançar os propósitos da igreja do NT, que é seguindo o modelo das igrejas do Novo Testamento!”.

     Existem certas bases verdadeiras, nas quais as igrejas convergem, independentes de serem Metodista, Presbiteriana, Batista, Pentecostal, Anglicana ou qualquer outra. Essas bases incluem: fazer discípulos (Mt 28:18-20), instruir e treinar os santos (Ef 4:11-16), encorajar a supremacia do amor através do exercício dos dons espirituais (1Co 1:11-14) e celebrar a Ceia do Senhor.

     Nosso argumento é que os apóstolos conheciam o melhor contexto no qual atingir esses objetivos e propósitos, tomados como padrão similarmente por nós, nas igrejas que eles estabeleceram.

     Lembra-se da citação anterior dos professores Fee e Stuart de que algo que seja meramente narrado ou descrito não deve jamais ser usado de uma maneira normativa? Na segunda edição de seu livro, eles mudaram ligeiramente sua declaração. Agora, ela está assim: “a menos que as Escrituras explicitamente digam que devemos fazer algo, o que é simplesmente narrado ou descrito não deve ser usado de uma maneira normativa – a menos que possa ser demonstrado, em outros níveis, que o autor teve a intenção de que assim fosse” (pág. 106, segunda edição). Tentamos demonstrar que os apóstolos de fato planejaram que as igrejas seguissem os padrões que eles deixaram para a ordem de todas elas.


Resumo

  1. Deus comanda tanto por modelos (tradição) quanto pela percepção (ensinamentos).
  2. Os padrões do NT são para uso da igreja em todas as épocas e lugares.
  3. A tradição apostólica é igual em autoridade aos ensinamentos apostólicos.
  4. O essencial (o mínimo irredutível) de uma igreja do Novo Testamento é: compromisso com a tradição apostólica, celebração da Ceia do Senhor como uma refeição completa, cultos interativos, governo da igreja por consenso (orientação pelos anciãos, não comando por eles), localização das igrejas em domicílios e igrejas de dimensões condizentes com essa última característica.
  5. Sem Jesus Cristo como centro de tudo, os padrões se tornam legalismo e morte, uma forma vazia, uma casca oca. Precisamos da adequada garrafa para o vinho, porém mais importante é o vinho. Ambos têm sua importância. Apenas um sem o outro seria problemático.
  6. Seguir padrões do NT não significa apenas tentar recriar cegamente a cultura de Roma antiga (como vestir togas, escrever em pergaminhos, iluminar com lamparinas, etc.) O assunto aqui é práticas das igrejas. Devem existir razões óbvias por trás das práticas seguidas.
  7. Seguir padrões do NT não significa também que cada igreja deve ser exatamente igual às outras, como que feitas numa forma. Certamente deve haver similaridades no básico (veja sumário anterior), mas existe também liberdade dentro das fronteiras do modelo.
  8. Igrejas domiciliares bíblicas não são orientadas por programas nem edificadas por planejamento, como muitas igrejas modernas o são. Por isso, muitos equivocadamente concluem que somos contrários à organização. Fé em nosso Senhor e na Sua Palavra necessariamente resultam em uma igreja domiciliar bíblica que segue o padrão completo de Deus. Nós não somos institucionais, mas somos organizados. Seguir as tradições legadas pelos apóstolos quer dizer que as igrejas domiciliares devem ter líderes definidos, cultos regulares e ordeiros, disciplina ativa e refeições semanais como Ceias do Senhor.

     Muitas igrejas hoje estão firmemente ancoradas em tradições desenvolvidas após o encerramento da era apostólica (freqüentemente essas tradições datam do século dezenove). Ainda que vejam com simpatia as tradições apostólicas, a preferência é dada às tradições desenvolvidas mais recentemente. Nesses casos, não somos culpados de anular a inspirada tradição apostólica, para servir nossa própria tradição (Mateus 15)? Judas 3 declara que a fé “uma vez por todas foi entregue aos santos”. Que autorização temos para mexer com ela?

                                                                                                                                                      Tradução de Otto Amaral

     Um capítulo foi escrito, no livro de estudos The Practice of The Early Church (por enquanto só disponível em inglês) para os que desejam estudar as idéias expressas neste artigo. Usando o método socrático, ele encoraja os leitores a chegarem às suas próprias conclusões lendo as Escrituras. O curso é especialmente útil para estudos individuais ou para uso como manual para grupos de estudo bíblico.

(*) Steve Atkerson - Steve é graduado Mestre em Divindade pelo Mid America Baptist Theological Seminary e serviu por sete anos como pastor da Igreja Batista do Sul. Ele demitiu-se em 1990 para trabalhar com as igrejas domiciliares, as igrejas do Novo Testamento. Esteve é agora ancião numa dessas igrejas, professor, palestrante itinerante e presidente da New Testament Restoration Foundation (Fundação para Restauração do Novo Testamento).

 

 
 
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      Atualização de 15 de setembro -
    LEIA O NOVO ARTIGO:

   - QUEM MATOU JESUS?

    Interessante estudo sobre as pessoas e
     as entidades que, no plano terreal, foram
     instrumentos na concretização do drama
     do Calvário.
     Análise bíblica e jurídica do processo for-
     jado contra Jesus para levá-lo à morte.
     E se Ele voltasse hoje, nas mesmas con-
     dições, como seria?
     Quem quereria matá-lo de novo?

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