Assim se escrevia, em caracteres gregos, (a lingua do Novo Testamento), o nome da igreja de Jesus, no tempo dos apóstolos: Ekklesia Iesous Cristos (Assembléia de Jesus Cristo).

"Antes crescei na graça e no
conhecimento de nosso Senhor
e Salvador Jesus Cristo"
(II Pedro 3:18)
 
 
 
   

MINISTÉRIOS FAMILIARES
- CHAVE PARA IGREJAS SADIAS
                                                Jonathan Lindvall (*)

 

     Na cultura moderna, vamos nos habituando, cada vez mais, a avaliar virtualmente tudo de uma perspectiva individualista. Encontramos nossa identidade na nossa própria individualidade, por nossas realizações, posição, posses, etc. Também cresce aceleradamente a dificuldade que temos com relação à noção de que somos parte de algo maior do que nós mesmos.
Contudo, a Bíblia apresenta um paradigma muito diferente. Pessoas devem encontrar suas identidades em pertencer a um todo maior: uma linhagem, uma família ou, mais importante, o corpo de Cristo. Muitos de nós nos esforçamos para aprender esse conceito de comunidade. Por exemplo, muitos ocidentais não têm mais do que um conhecimento teórico da alegação de Jesus (em Mateus 19:6 e Marcos 10:8) de que marido e mulher “não são mais dois, mas uma só carne” ou a afirmação de Paulo  (em Romanos 12:5) de que “nós, embora muitos, somos um só corpo em Cristo, e individualmente uns dos outros”.

    Eu tenho sempre abraçado essas verdades academicamente. Porém, experimentalmente, eu não consigo alcançar como minha esposa e eu somos um, além do mais rudimentar senso de intimidade física. Similarmente, a maior parte da minha experiência reflete a constatação de que igreja é um conglomerado de indivíduos exercendo a mesma função.

     Assim como o Senhor tem orientado muitos a ver o padrão apostólico de reuniões em domicílios, eu suspeito que, como eu, muitos carregam consigo suas bagagens de experiências e conceitos passados. Mas,  o Senhor está aparentemente restaurando o entendimento e as experiências do conjunto do corpo de Cristo dentre as muitas igrejas domiciliares hoje. O Senhor está nos movendo a passar de uma postura apenas de confirmação teológica da verdade da unidade, para a realidade de sermos experimentalmente amalgamados juntos, em um todo que é maior do que suas partes.

     Um dos caminhos que Ele está usando é a restauração dos fundamentos da unidade e da identidade da família. Eu levanto a hipótese de que uma das razões para o movimento de educação escolar em casa (Nota do tradutor: veja Nota 1 no final do artigo),  existe para preparar as famílias para funcionarem unidas na igreja. Historicamente, à medida que o  individualismo gradualmente moldou as percepções nas sociedades ocidentais, a igreja, num crescendo, foi perdendo sua consciência do “Poder Espiritual dos Ministérios Familiares” (título de uma palestra da qual esse artigo derivou).

     Quando Deus introduziu na igreja do século dezenove a visão das missões estrangeiras, uma insidiosa e destrutiva semente começou a germinar e florir. As famílias dos missionários tinham consciência sobre a educação de seus filhos. Como a educação institucional tornou-se a norma assumida, isso criou um perceptível conflito para muitos missionários e as agências que os havia enviado. Gradualmente, uma infra-estrutura educacional de internatos missionários foi desenvolvida para atender à aparente necessidade. No século vinte, era típico para os pais missionários viverem separados de seus filhos por longos períodos, prática essa frequentemente começando na mais tenra idade das crianças. À medida que os internatos para filhos de missionários se tornaram mais comuns, um trágico fenômeno se tornou cada vez mais aceito.

     Os filhos de missionários tornaram-se virtualmente órfãos de pais que davam o melhor de si como ministradores de amor a terceiros. Muitos dos filhos e filhas desses missionários em terras distantes se tornaram amargos, face os sacrifícios feitos por seus pais. Triste é que, hoje, muitos dos egressos desses orfanatos nada querem com o Senhor e censuram a igreja de separá-los de seus pais durante um período no qual, por desígnio de Deus, estes deveriam ser seus principais ministros, ainda que não os únicos.

     Existem hoje agências missionárias que requerem de seus candidatos o compromisso de matricularem seus filhos em internatos. Isso não é exigido para o benefício das crianças,  mas é abertamente intentado para deixar os pais (o pai a mãe), individualmente, com menos motivos de distração no campo. Casais missionários são então muito mais vistos como associados no ministério, do que como uma unidade familiar. A agência espera colher o benefício da utilização de dois trabalhadores individuais, ao invés de vê-los como um casal.

      Isso não só tem um efeito devastador nas crianças, mas também na própria noção de família. Em verdade, isso acelera a disseminação de pressuposições individualistas, minando o que é, ironicamente, mais culturalmente bíblico: as tradições e os costumes existentes nos grupos sendo evangelizados. O resultado deplorável é que nas novas igrejas prevalece um modelo de vida familiar doentio e antinatural. Os integrantes desses grupos jamais recebem um exemplo de família integral e saudável, da vida dos que os disciplinam. (Durante meu ministério na Ásia, temo ter visto, entre as igrejas indianas e chinesas, o prevalecente fruto de ignorar, desculpar ou até elogiar a infidelidade na vida familiar). 

      Esse triste estado de coisas, todavia,  não ocorre unicamente nas missões estrangeiras. Durante as últimas gerações, a igreja do Ocidente tem visto crescer o número de trabalhadores da igreja que se concentraram exclusivamente nos seus ministérios, negligenciando suas famílias. Ainda que esse fenômeno não seja novo, ele está se arraigando aceleradamente no cristianismo institucional. As conseqüências destrutivas disso incluem o solapamento da base das famílias piedosas dentre o povo de Deus.

     Antes de prosseguir, deixe-me esclarecer minha exortação, reconhecendo que o oposto é também uma armadilha. Assim como é possível para um homem cair na idolatria de seu próprio ministério, é também possível que outro idolatre a família ou a idéia de família. Devemos sempre amar a Jesus acima de qualquer coisa, seja nosso ministério ou a família pela qual Ele nos responsabilizou. Jesus nos alertou contra o colocarmos nossa família antes Dele (Mateus 10:34-37, 12:47-50, 19:29, Marcos 10:29-30 e Lucas 9:59-62 e 14:20-26). Essas passagens são cada vez mais usadas para racionalizar um antibíblico abandono das responsabilidades familiares. Sem negligenciar os cuidados contra o ato de idolatrar a família, vamos considerar o que mais a palavra de Deus diz sobre a prioridade do ministério da família e como isso influi nos nossos outros ministérios.


DEUS AMA A FAMÍLIA


     Deus criou as famílias e expressa Suas emoções sobre elas. Numa claríssima expressão de Seu coração, Deus expressa seus sentimentos sobre a família em Malaquias 2:16: “Pois eu detesto o divórcio, diz o Senhor Deus de Israel”. Eu acredito que Deus ama o princípio de família. Ele escolheu as relações familiares como a metáfora dominante para o relacionamento dos cristãos do Novo Testamento para com Ele e com cada um dos outros irmãos. Os cristãos se tornaram os filhos de Deus (João 1:12, Romanos 8:16 e 1 João 3:2) e parte de sua família (Efésios 2:19). Além de outras coisas, Jesus veio revelar Deus como Pai (Lucas 11:2 e João 1:18 e 16:25). O Espírito Santo revelou, além de muito mais, Deus como nosso Abba (Paizinho, tratamento íntimo para Pai, conforme Romanos 8:14 e Gálatas 4:6). Uma das identificações mais frequentemente empregadas para os cristãos, no Novo Testamento, é a palavra irmãos (Mateus 23:8, Atos 6:3, 1 Pedro 1:22, 1 João 3:14 e 3:16). Uma das mais belas figuras das relações entre Cristo e a igreja é o relacionamento de um noivo com sua noiva (Mateus 9:15, João 3:29, 2 Coríntios 11:2, Apocalipse 19:7-9, 21:2, 21:9 e 22:17). Enquanto que essas metáforas não foram muito usadas no Velho Testamento, elas se expandiram largamente no Novo Testamento.  O Senhor pretende que mantenhamos sadio o relacionamento de nossas famílias, para que estas ofereçam as imagens práticas e reais, para Seu uso ao revelar as realidades espirituais. Se a imagem é negligenciada, perdemos parte das intenções de Deus para suas revelações.

     De fato, Paulo disse que cada família é designada para ser um reflexo do patriarcado do Pai Celestial. Em Efésios 3:14-15, Ele escreveu: “Por esta razão dobro os meus joelhos perante o Pai (em grego, pater), do qual toda família (em grego patria) nos céus e na terra toma o nome”. Por Seu desígnio, as famílias devem ser lideradas pelos pais e aparentemente definidas pela jurisdição patriarcal da paternidade.

     Longe de abolir ou minimizar a família, o Novo Testamento reforça e explana o que foi apresentado sobre a família no Velho Testamento. Uma das passagens do Velho Testamento mais citadas no Novo é a determinação para  que cada um “Honre seu pai e sua mãe” (Êxodo 20:12, Levítico 19:3, Deuteronômio 5:16, Mateus 15:3-9 e 19:16-19, Marcos 7:6-13 e 10:17-19, Lucas 18:18-20 e 6:2). Em suas cartas, os apóstolos investiram muito do seu tempo ensinando sobre práticas familiares (1 Coríntios 7, Efésios 5:22 e 6:4, Colossenses 3:18-21, 1 Timóteo 3:2, 3:4-5, 3:11-12, 5:4, 5:8-10, 5:8-14 e 5:8-16, Tito 1:6 e 2:3-5, 1 Pedro 3:1-7 e Hebreus 12:5-11).


HOSPITALIDADE FAMILIAR


    Uma das práticas-chave encorajadas no Novo Testamento é hospitalidade (Romanos 12:13, 1 Timóteo 3:2, Tito 1:8 e i Pedro 4:9). Isso pode despertar nossa suspeição de que há um problema subjacente, desde que, na igreja moderna,  essa é uma das mais flagrantemente negligenciadas características. Hospitalidade é praticada no âmbito familiar. Porém, se nossas famílias são atomizadas em fragmentos individuais, cada um com sua vida independente, então há muito pouco contexto potencial para sermos hospitaleiros.

     É muito elucidativo que uma das mais importantes características que Deus instituiu para avaliar as qualificações de potenciais líderes na igreja é que eles sejam hospitaleiros (1 Timóteo 3:2 e Tito 1:8). Quando eu era jovem, servi como pastor da juventude e pastor associado em duas diferentes igrejas (por um ano em cada uma). Durante esse tempo,  eu nunca entrei na casa do pastor principal. Em um  dos casos, eu jamais sequer soube onde o pastor morava! Eu absolutamente não culpava esses sinceros homens de Deus, que se supõe sejam “exemplos para o rebanho” (1 Pedro 5:3), por esse chocante desrespeito às Escrituras. Eu estava também bastante corrompido e imaginava que o território neutro do edifício da igreja era o lugar mais apropriado para a comunhão, mas que a hospitalidade era muito simpática, mas não era essencial. Assim, existem santos aos quais ministrei que poderão facilmente me cobrar pela mesma falha.


A FAMÍLIA DO ANCIÃO


     As mínimas qualificações explícitas para liderança no corpo de Cristo incluem outras coisas em matéria de família. Um ancião/bispo (que é o mesmo que pastor, na igreja do Novo Testamento - veja poimaino, presbuteros e episkopos em Atos 2:17 e 2:28, Tito 1:5 e 1:7 e 1 Pedro 5:1-2) deveria ser “marido de uma só mulher” (1 Timóteo 3:2 e Tito 1:6). Existe hoje alguma controvérsia sobre a aplicação disso. Alguns aplicam essa passagem simplesmente à poligamia; outros, sustentam que ela impede homens divorciados e casados de novo de serem publicamente reconhecidos como exemplares e, outros ainda, entendem que um ancião deve ser o “tipo de homem de uma só mulher”.

      Eu suspeito que a exigência de ser “marido de uma só mulher” não só quer dizer que um homem com mais de uma esposa está desqualificado, mas que o homem com menos de uma esposa também não é qualificado para ser reconhecido como um modelo para a igreja. Enquanto que o homem solteiro certamente tem a vantagem de ter menos distrações e responsabilidades (e assim, mais liberdade), essa mesma menor responsabilidade é também um empecilho quando ele se propõe a liderar na igreja. É mais provável que um homem solteiro fosse um neófito, um noviço (ou pelo menos fosse aceito como um), porém Paulo pediu a Timóteo  (1 Timóteo 3:6) para escolher como anciãos àqueles de “não fossem neófitos”. Depois, ele deixou claro que a reputação, assim como a prática e a maturidade de um homem eram importantes (1 Timóteo 3:7: “Também é necessário que tenha bom testemunho dos que estão de fora”).

    Algum tempo depois de me casar com minha esposa Connie, comecei a constatar quão despreparado para o casamento eu estivera. Eu simplesmente não estava suficientemente maduro para o casamento. Ainda considerando o assunto, concluí que eu provavelmente jamais estaria maduro o bastante para o casamento, enquanto fosse solteiro. Porém, me pareceu que, com apenas alguns meses de casado, eu já havia descoberto ótimos caminhos que me forçaram a amadurecer. Duvido muito que eu houvesse crescido nessas áreas, como homem solteiro. O casamento me transformou de maneira que, de outra forma, eu jamais o teria conseguido. Verdadeiramente,  “não é bom que o homem esteja só” (Gênesis 2:18). Existirão raras exceções, porém um homem que seja solteiro  (ou pelo menos que nunca foi casado), provavelmente não estará numa posição de completo e equilibrado modelo para o corpo de Cristo, como alguém que houvesse demonstrado capacidade para “administrar bem sua casa”.

     De fato, eu entendo que um homem que jamais experimentou a paternidade será similarmente prejudicado. Paulo disse a Tito  (1:6) para reconhecer apenas os anciãos que fossem “marido de uma só mulher, tendo filhos crentes”. Assim como eu não estivera preparado para o casamento até que me casasse, eu também não estava preparado para a paternidade até que Connie e eu fôssemos abençoados com nosso primeiro filho.

     Ser pai levou-me por certos caminhos, nos quais eu jamais haveria amadurecido, se não tivesse tido filhos. À medida que o Senhor continuou a nos abençoar com mais filhos, e estes iam avançando na infância e na juventude, eu ia me tornando mais preparado para a liderança como ancião.

     Outros pais que ensinavam a seus filhos as matérias escolares em casa (N. do T. - Veja nota a esse respeito no fim do artigo)  e eu, na nossa congregação, levantamos a hipótese de que a razão de Deus, para nos orientar a ensinar nossos filhos em casa, não foi exclusivamente (talvez principalmente) para o benefício deles. Deus nos chamou para ensinar nossos próprios filhos também pela maturidade que isso nos proporcionaria como pais. Qualquer professor sabe que o mestre aprende mais do que os estudantes, no processo do ensino.
Na verdade, eu suspeito que uma das principais razões de Deus para fazer crescer o movimento de ensino formal nos domicílios nesta geração, é a de preparar anciãos qualificados, que aprenderam como disciplinar a outros, como resultado do disciplinar seus próprios filhos e filhas.

      É triste, como já afirmei antes, que os filhos daqueles que são devotados ao ministério, na igreja contemporânea, frequentemente tenham a pior reputação. Sou abençoado por ser um FA, ou filho de ancião. Porém, quando criança eu aprendi que o acrônimo FA muitas vezes é uma  designação depreciativa na igreja de nossos dias. Ainda que isso nem sempre seja merecido (muito adoram encontrar falta nos líderes, para desculpar seus próprios erros), é frequentemente verdade que os filhos daqueles que estão no ministério público não são exemplos para o resto do corpo de Cristo.

      Penso que todos já vimos homens que parecem ter um chamado verdadeiro de Deus para o ministério público, que são só focados nesse ministério, a ponto de negligenciarem suas próprias famílias. Paulo inclui, como qualificação para a liderança nas igrejas locais, que os filhos dos anciãos precisam ser bem treinados. Ele define “os que governem bem a sua própria casa” (1 Timóteo 3:4), como “tendo seus filhos em sujeição, com todo o respeito”. Então ele oferece a razão para essa exigência: “pois, se alguém não sabe governar a sua própria casa, como cuidará da igreja de Deus?”.

     Em suas instruções a Tito, (1:6) ele é mais explícito ao especificar as expectativas dos frutos da paternidade de um ancião. Este deve ter “filhos crentes que não sejam acusados de dissolução, nem sejam desobedientes”. Os filhos dos anciãos devem, não apenas estar submissos aos pais, mas a fidelidade deles precisa ser evidente, de forma a que não possam ser sequer acusados de excessos ou desobediências. Obviamente, os filhos de anciãos serão tão egoístas e inclinados a pecar, como todas as outras pessoas. Contudo, apenas os homens que tenham demonstrado sua capacidade para cumprir o determinado em Provérbios 22:6 (“Instrui o menino no caminho em que deve andar”), podem ser publicamente reconhecidos como modelos para a igreja. A palavra traduzida como fiel  referindo-se aos filhos (pistos, em grego) é, em outros lugares, traduzida como acreditando. (Por exemplo, Jesus usou essa palavra como contraste à dúvida de Tomé em João 20:27. Veja também Atos 10:45, 16:1, 2 Coríntios 6:15, 1 Timóteo 4:3, 4:10, 4:12, 5:16 e 6:2).  Não é certamente fora de propósito afirmar que apenas os homens que  treinaram filhos crentes poderiam ser considerados para ser anciãos. Alguém poderia apontar os exemplos de Jesus e de Paulo como homens solteiros e sem filhos. Essas exceções poderiam com certeza nos motivar a sermos cautelosos em aplicar as normas escriturísticas muito rigidamente. Além disso, devemos evitar o uso de exceções para invalidar normas claramente explícitas nas Escrituras. Ainda que existam boas razões para concluir que Paulo era solteiro, alguns estudiosos acreditam que ele fosse casado. Ainda que ele fosse eunuco, seus escritos, inspirados pelo Espírito Santo, especificam que os anciãos  (não necessariamente apóstolos itinerantes) sejam “maridos de uma só mulher e tenham filhos fiéis”.

     Alguns podem persistir em apontar os outros apóstolos que aparentemente deixaram suas famílias para seguir a Jesus. Porém, eu penso que vemos esse assunto através de um filtro moderno e enviesado, que distorce nossa percepção para nosso próprio e individualista paradigma. Até a narrativa (em Marcos 1:20) de como Tiago e João, “deixando seu pai Zebedeu no barco com os empregados, o seguiram”, não representava desrespeito ao pai dos escolhidos, à luz da extensa reprovação de Jesus (7:1-13) aos fariseus adultos por estarem “invalidando assim a palavra de Deus pela vossa tradição”, quando eles justificaram a falha em honrar aos seus pais e suas mães. Se bem que usar o silêncio como argumento seja suspeito, é bem provável que Tiago e João tivessem as bênçãos de Zebedeu. Isso é particularmente possível, pelo fato de a mãe deles também era uma das mulheres que viajavam com Jesus (Mateus 20:20 e 27:56).

     Mas, quem eram essas “muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galiléia” (Mateus 27:55-56, Marcos 15:40-41, Lucas 8:1-3, 23:49, 23:55 e 24:10)? Algumas delas tiveram seus nomes gravados, como  “Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu”, mas aparentemente existiam muitas outras. É até bastante surpreendente que não houvesse insinuações dos fariseus acusando Jesus e os apóstolos de impropriedade, em razão das muitas mulheres que os acompanhavam. Uma possível explicação é a de que várias dessas mulheres fossem as esposas dos apóstolos.

     Novamente, alguém pode argumentar que esse é o argumento do silêncio. Também a assunção de que os apóstolos deixaram suas esposas e filhos para seguir a Jesus é, da mesma forma, apenas baseada em inferências. Alguns podem argumentar que, quando Jesus elogiou todo aquele “que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos” por Sua obra e pelo Evangelho (Marcos 10:29), ele transformou isso em norma. Porém, se isso fosse assim, estaria em conflito com os ensinamentos Dele mesmo e dos apóstolos.  Claramente, outra passagem determina que esposa e filhos devam ser “aborrecidos” (Lucas 14:26), em comparação à nossa devoção a Jesus. Todavia, em outro lugar, os maridos são incitados a amar suas esposas (Efésios 5:25 e Colossenses 3:19).


OS APÓSTOLOS ERAM CASADOS?


     Sabemos que Pedro era casado porque os evangelhos sinóticos dizem que Jesus curou a mãe de sua esposa (Mateus 8:14, Marcos 1:30 e Lucas 4:38). Não é espantoso que, além dessa simples referência, a esposa de Pedro não seja mencionada em nenhum outro lugar dos Evangelhos? Porém, o silêncio dos Evangelhos sobre essa mulher não deve ser tomado como ausência de atividade ou de devoção por parte dela. Sabemos que a esposa de Pedro mais tarde viajou com ele no exercício de seu ministério (1 Coríntios 9:15).

    Na verdade, percebemos que outros apóstolos e irmãos do Senhor também  viajavam com suas esposa. Quantos dos outros apóstolos tinham esposa? Paulo pode ter usado uma hipérbole aqui, mas parece que ele estava deduzindo que ele e, possivelmente, Barnabé (1 coríntios 9:16) eram os únicos apóstolos que não seguiam essa prática.

     Não sabemos quando esses apóstolos se casaram. É possível que isso tenha ocorrido depois de seus três anos e meio com Jesus, mas não necessariamente, em razão de suas esposas não serem mencionados nos relatos. Podemos apenas chegar a essa conclusão quando lemos as narrativas filtrando-as através de modernos paradigmas. Hoje parece ser altamente inapropriado negligenciar a menção às esposas dos apóstolos. Mas, se não fosse por essa única menção indireta no comentário de Paulo, não teríamos referência explícita às esposas dos apóstolos. Se essa declaração não tivesse ocorrido, muitos poderiam assumir, dado o silêncio das Escrituras, que eles não eram casados. Isso parece ser um paradigma relativamente recente.

    Mas, e a respeito de filhos? É provável que os casamentos dos apóstolos tenham sido abençoados com os frutos do ventre materno. Ainda que seus filhos não sejam mencionados (embora suas esposas o sejam), seria apenas através de recursos modernos de referência que poderíamos usar o silêncio para concluir que esses filhos existiram ou viajaram com seus pais. Na cultura dos hebreus era esperado que os homens tivessem esposa e filhos, com raras exceções. Evidências de outras esposas e filhos de apóstolos vieram até nós de outra fonte surpreendente: antes de trair Jesus, Judas Iscariotes foi escolhido como um dos doze apóstolos (Lucas 6:13-16 e 22:3) - e ele era casado e tinha filhos. Após a morte de Judas, Pedro disse aos outros discípulos (Atos 1:16) que havia uma “escritura que o Espírito Santo predisse pela boca de Davi, acerca de Judas”. Ele então citou parte de Salmos 109:8, que diz: “Sejam poucos os seus dias, e outro tome o seu ofício!”. Note que esse Salmo continua falando da mesma pessoa (Salmos 109:9-10): “Fiquem órfãos os seus filhos e viúva a sua mulher!  Andem errantes os seus filhos e mendiguem; esmolem longe das suas habitações assoladas”. A passagem continua se referindo sobre seus filhos sem pai e sua posteridade. Pedro afirmou que essa passagem era uma profecia das Escrituras a respeito de Judas. Assim, comprova-se que Judas tinha esposa e filhos.

     Ainda que essas indicações não sejam conclusivas, levanto a hipótese de que foi em razão do silêncio das Escrituras a respeito das famílias dos apóstolos que, nós modernos, assumimos que eles seguiam a Jesus individualmente. Isso será mais historicamente válido, dentro do contexto cultural, se assumirmos que os homens deveriam ser casados e ter filhos. Desse modo, estou persuadido de que devemos nos valer do relativo silêncio a respeito das famílias dos apóstolos como evidência de sua existência e de que todas essas famílias seguiam a Jesus.


MINISTÉRIOS FAMILIARES NO NOVO TESTAMENTO


     Além de que a maioria dos apóstolos deve ter tido família, o Novo Testamento se refere, mais especificamente, a muitos ministérios familiares. Áquila e Priscila formavam um casal devotado ao trabalho do Senhor. O silêncio das Escrituras, sobre se eles tiveram ou não filhos, como parte de seu ministério familiar, não pode ser tomado como evidência contra a probabilidade maior de que eles os tiveram. Historicamente, não seria usual para um casal não ter filhos e, ao contrário, seria usual que eles se mantivessem não nomeados ou mencionados.

     A referência (Atos 18:2) de Paulo encontrando Áquila em Corinto, poderia indicar que ele estava familiarizado com aquela família e que estava procurando por ela. Sem nenhuma delonga, ele foi admitido na família e, aparentemente, também como sócio do negócio familiar que eles tinham, de fabricar tendas (Atos 18:3). Paulo permaneceu em Corinto por um ano e meio. Quando ele se foi para Éfeso, Priscila e Áquila o acompanharam. Se eles tinham filhos, como eu suspeito que tivessem, eles indubitavelmente se mudaram junto com os pais. Paulo esteve em Éfeso por pouco tempo, tencionando retornar depois, porém a família de Áquila ali permaneceu (Atos 18:18-19), possivelmente preparando a volta do apóstolo àquela cidade (verso 21).

     Durante a ausência de Paulo, um homem chamado Apolo começou a pregar o Evangelho na sinagoga de Éfeso, porém seu entendimento era falho. Assim, Áquila e Priscila “levaram-no consigo” (Atos18:26, provavelmente para a casa deles)  “e lhe expuseram com mais precisão o caminho de Deus”. Paulo depois determinou (1 Timóteo 2:12) que “não permito que a mulher ensine, nem tenha domínio sobre o homem, mas que esteja em silêncio”. Como pode isso ser conciliado com a narrativa de que Priscila, com Áquila, “expuseram (a Apolo) com mais precisão o caminho de Deus”?

    Uma solução para essa aparente contradição pode ser encontrada na distinção entre “explanar” e “ensinar”. Pode ser também que a admoestação de Paulo para que as mulheres mantivessem silêncio nas assembléias da igreja  (1 Coríntios 14:34-35) fosse limitada aos momentos em que “toda a igreja se reunisse num mesmo lugar” (14:23). É também provável (ou, pelo menos, possível) que a advertência de Paulo contra as mulheres ensinar aos homens estivesse no mesmo contexto. Desse modo, seria perfeitamente aceitável que a mulher exercitasse dons espirituais em oportunidades mais privadas ou em qualquer outra oportunidade, além da assembléia de toda a igreja reunida como corpo. Assim, como uma significativa (e mencionada com proeminência) parte do ministério familiar de Áquila, Priscila encontrou a apropriada expressão do seu dom de ensino, em  conversas privadas e mesmo em ajudar a corrigir meigamente o entendimento insuficiente de Apolo sobre os Evangelhos.

     Descobrimos que quando Apolo depois viajou para Corinto, havia um corpo de irmãos em Éfeso (Atos 18:27) que, coletivamente, “o animaram e escreveram aos discípulos (em Corinto) que o recebessem”. Isso demonstra que o ministério familiar de Áquila estava produzindo frutos. Nós sabemos com certeza que Paulo, quando escreveu sua primeira carta aos coríntios (presumivelmente de Éfeso), enviou recomendações de Áquila e Priscila (1 Coríntios 16:19), assim como da “igreja que está em sua casa”. O ministério familiar deles estava obviamente produzindo crescentes frutos.

     Podemos apenas conjeturar sobre como evoluiu o ministério familiar de Áquila, porém algum tempo depois, quando Paulo escreveu sua epístola aos santos de Roma, ele disse especificamente: “Saudai a Priscila e a Áquila, meus cooperadores em Cristo Jesus” (Romanos 16:3). Aparentemente, a família deles agora estava em Roma e o Senhor abençoava o ministério que desenvolviam. Depois de elogiá-los, Paulo complementa: “Saudai também a igreja que está na casa deles” (16:5). Como em Corinto e em Éfeso, o ministério familiar de Áquila e Priscila também atuava efetivamente em Roma, em prol do Reino de Deus.

    Outro ministério familiar interessante nas Escrituras é o de Felipe, o evangelista. Ele foi um dos “sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria” (Atos 6:3) escolhidos para supervisionar a distribuição de alimentos para as viúvas de Jerusalém. Ele foi depois usado poderosamente para levar o evangelho à Samária e o eunuco etíope ao Senhor. O silêncio das Escrituras sobre Felipe haver tido ou não uma esposa não pode ser aceito como conclusão de que ele era solteiro. Não era raro a esposa de um homem não ser posta em evidência. No caso de Felipe, alem disso, concluímos que ele era casado, em razão de suas “quatro filhas virgens que profetizavam”, mencionadas em Atos 21:9.

     Esse ministério familiar hospedou a Paulo e seus companheiros (incluindo Lucas). Algumas pessoas assumem que, pelo fato das filhas de Felipe profetizar, o uso por elas desse dom era argumento contra as repetidas conclamações de Paulo (1 Coríntios 14:34-35 – no verso 37, ele especificamente coloca isso entre os “mandamentos do Senhor”) a que as “mulheres estejam caladas nas igrejas”. Entretanto, nada existe no texto que nos indique que as jovens profetizassem nas reuniões da igreja. Similarmente, quando outro profeta, Ágabo profetizou que Paulo seria preso em Jerusalém (Atos 21:11), não há razão alguma para entendermos que essa profecia foi feita numa reunião da igreja, ao invés de num contexto familiar, estando Felipe reunido apenas com seus hóspedes, em sua casa. O ministério familiar de Felipe foi um ministério onde orações, exortações e profecias eram provavelmente comuns, ocorrências cotidianas envolvendo homens e mulheres.
Ainda outro ministério familiar mencionado no Novo Testamento foi o de Onesíforo. Paulo escreveu (2 Timóteo 1:16-17) sobre ele: “O Senhor conceda misericórdia à família de Onesíforo, porque muitas vezes ele me recreou, e não se envergonhou das minhas cadeias; antes quando veio a Roma, diligentemente me procurou e me achou”. Esse irmão (e talvez sua família) viajou a Roma com o objetivo, ao menos em parte, de encontrar Paulo e ministrar sobre suas necessidades. Não se sabe se a família de Onesíforo estava com ele ou não. Mas, de toda forma, Paulo abençoou a toda a família. Por quê?

     Paulo continuou (2 Timóteo 1:18): “E quantos serviços prestou em Éfeso melhor o sabes tu”. Aqui está um irmão que, viajando ou em casa, tem a reputação de servir as necessidades dos santos. Dada a referência à sua família, não é difícil imaginar que seus outros membros ministraram junto com o cabeça da casa em muitas oportunidades práticas. Esse foi mais um dos ministérios que Deus usou em conjunto. Antes de encerrar essa segunda carta a Timóteo, ele menciona Onesíforo mais uma vez, em 4:19: “Saúda a Priscila e a Áquila e à casa de Onesíforo”. Percebe-se claramente que essa família toda tinha um lugar especial no coração de Paulo.

      Gostaria de considerar, finalmente, o ministério familiar de Estéfanas. Paulo batizou essa família em Corinto (1Coríntios 1:16). Eles foram os primeiros convertidos (primeiros frutos) na província romana de Acaia e eles os elogiou (1 Coríntios 16:15) como uma família “que se tem dedicado ao ministério dos santos”.  Paulo determinou algo a respeito dessa família, que não encontrei em nenhum outro lugar do Novo Testamento: ele orientou, em 1 Coríntios 16:16, a que os santos coríntios se submetessem, como igreja, à família de Estéfanas. Ao contrário de outras passagens, onde os tradutores usaram a expressão submeter no contexto de relacionamentos na igreja, aqui a palavra grega empregada foi hupotasso, um termo militar designativo de subordinação e obediência.


APLICAÇÃO


     É nitidamente mais efetivo demonstrar algo a alguém, do que simplesmente falar a respeito. O modelo bíblico para os líderes no corpo de Cristo é de que eles sejam exemplos para o rebanho e não senhores sobre ele (1 Pedro 5:3). Uma das principais áreas nas quais os anciãos devem ser exemplos é a administração de suas famílias. Para o exemplo funcionar, aqueles que recebem a ministração devem poder perceber claramente as famílias dos líderes anciãos em operação.

      Eu desafio o corpo de Cristo a pedir revelações ao Senhor, a respeito do que Ele tem em Seu coração para as famílias e para identificar a escravidão que nosso individualismo cultural nos impôs. Eu encorajo aos obreiros cristãos a fazerem de suas famílias seu primeiro ministério – de seus próprios filhos, seus discípulos principais. Assim, quando ministrarem aos outros, que o façam da melhor forma possível, na presença de suas famílias.

    Por muitos anos o Senhor tem me orientado a não viajar sozinho. Ocasionalmente, outro irmão viaja e ministra comigo. Mas, usualmente, eu levo minha esposa ou um dos meus filhos. Quando a oportunidade de ministrar é perto o bastante para ir de carro, eu sempre levo toda minha família comigo. (Enquanto eu escrevo este artigo, toda minha família – minha esposa e seis filhos – estão juntos numa jornada missionária de três meses à Índia). Eu percebi o sutil, porém definitivo impacto de ter pelo menos uma parte da minha família comigo em situações de trabalho ministerial.  Isso proporciona às minhas palavras mais credibilidade, quando as pessoas vêem o fruto do meu estilo de vida, anteriormente modelado.

     Meu desejo é que minha família possa ser, como a de Estéfanas, um prazer para o Senhor, como um exemplar e poderoso ministério familiar.

                                                                                      Tradução de Otto Amaral

 

(*) Jonathan Lindvall e sua esposa Connie ministraram as matérias do ensino formal aos seus seis filhos em casa (veja Nota 1, abaixo). Sua família é membro de uma igreja domiciliar em Springville,  na Califórnia, Estados Unidos. Jonathan é o administrador local de um ministério de escolas domiciliares e presidente da Vida Cristã com Ousadia, dirige o Seminário de Convivência Familiar com Ousadia, o Seminário da Juventude Cristão com Ousadia, seminários sobre igreja domiciliar  e outros eventos similares. Ele possui uma profunda formação em educação pública e privada, ministério pastoral e comunicação. É graduado B.A. em Bíblia, Teologia e Ciências Sociais pelo Bethany Bible College, de Santa Cruz, na Califórnia. Tem também o Mestrado em Administração Educacional pela Universidade Estadual da Califórnia, em Bakersfield. Ele pode ser contatado no site www.boldchristianliving.com       

 

Nota 1:

Nos Estados Unidos existe um sistema de ensino denominado “home school” (escola em casa), que consiste em que os próprios pais ou outros familiares ministrem as matérias do currículo escolar oficial às suas crianças, em casa, sem que estas freqüentem a escola. O membro da família que se oferece como professor se obriga a assistir palestras e a assumir o compromisso de manter os dias e horários das aulas, que são ministradas em um ambiente (mesmo que apenas um cantinho) exclusivo para a tarefa. Materiais didáticos são oferecidos pelo governo, mas seu uso fica a critério da família. Com  isso, os pais visam principalmente afastar seus filhos do ambiente das escolas, nem sempre adequados (mesmo lá!). Outro objetivo colimado é a ministração, pelas famílias, de versões diferentes das oficiais, acerca de pontos controversos do currículo, como o respeitante à criação (versus evolução) do universo e do homem. A tolerância (ou  omissão), de parte das escolas, sobre o problema do comportamento sexual dos jovens e do uso de drogas, são exemplos de posições indesejáveis das quais os pais que escolhem a “home school” conseguem afastar seus filhos. Que magnífica demonstração de valorização dos filhos e das famílias é dada por esses pais! Em sua maioria são evangélicos que, efetivamente, se preocupam com a postura de seus familiares como cidadãos do Reino e deste mundo e, especialmente, atender aos requisitos que Deus propõe a todos os que pretendem exercer algum tipo de ministério - como os demonstrados neste artigo!

 

 
 
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      Atualização de 15 de setembro -
    LEIA O NOVO ARTIGO:

   - QUEM MATOU JESUS?

    Interessante estudo sobre as pessoas e
     as entidades que, no plano terreal, foram
     instrumentos na concretização do drama
     do Calvário.
     Análise bíblica e jurídica do processo for-
     jado contra Jesus para levá-lo à morte.
     E se Ele voltasse hoje, nas mesmas con-
     dições, como seria?
     Quem quereria matá-lo de novo?

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