Assim se escrevia, em caracteres gregos, (a lingua do Novo Testamento), o nome da igreja de Jesus, no tempo dos apóstolos: Ekklesia Iesous Cristos (Assembléia de Jesus Cristo).

"Antes crescei na graça e no
conhecimento de nosso Senhor
e Salvador Jesus Cristo"
(II Pedro 3:18)
 
 
 
   

AS DORES DO CRESCIMENTO
- FICANDO GRANDE DEMAIS

                                       Jonathan Lindvall e Steve Atkerson

 

Parte Um                                                  Jonathan Lindwall (*)

    Dentro do mais comum senso do termo, pelas Escrituras, a igreja nunca poderá ser grande demais. Desde que o Senhor deixou Seu povo nesta terra, sempre foi Seu intento que Sua igreja crescesse. E mesmo no sentido da verdadeira igreja local (todos os realmente redimidos de uma localidade), sempre foi intenção de Deus que recebêssemos o crescimento como uma benção (pesquise na Bíblia a palavra “multiplicar” para uma idéia do que o Senhor tem no coração sobre crescimento numérico).

    Porém, e quanto a determinada congregação de santos que se reúne regularmente? É possível a tal assembléia se tornar muito grande? No paradigma da igreja atual, isso parece dificilmente concebível. Afinal de contas, a meta é o crescimento numérico, não é? O crescimento não é evidência de saúde espiritual, no cumprimento da grande comissão? Quanto maior uma igreja for, mais efetiva ela é, correto? Quanto mais pessoas existirem na igreja, mais variados e especializados seus programas serão, atendendo a necessidades específicas. Essas assunções podem ser comuns, mas elas realmente refletem a vontade de Deus para Sua casa?

     O crescente número de cristãos envolvidos com igrejas domiciliares demonstra o desejo de intimidade na comunhão com outros crentes, em torno do Senhor. Muitos experimentaram o crescimento das características impessoais das igrejas organizadas em torno de programas, especialmente quando se tornam maiores (ou se esforçam por parecerem maiores do que são). Muitas sentem o desligamento ao serem desconectadas de suas origens, pela crescente e cada vez mais  profissional produção que muitas igrejas procuram oferecer em seus serviços.

     Quanto a mim e minha casa, nós encontramos sólidos argumentos nas Escrituras favorecendo os cultos exclusivamente em residências particulares.  A insistência de Paulo (1 Coríntios 4:16-17, 11:1-2, 11:16, 14:33, Efésios 2:20, Filipenses 3:17, 2 Tessalonicenses 2:15, 3:6-9, 1 Timóteo 1:16, 3:14-15, 2 Timóteo 1:13) de que as igrejas sigam os padrões apostólicos (e seu próprio exemplo) são argumentos persuasivos contra a noção de que o local onde as igrejas se reúnem não é questão de determinação das Escrituras.

     Reuniões em torno do Senhor de uma forma autêntica são excitantes, interessantes e gratificantes de tal forma que o crescimento numérico provavelmente se dará, com o passar do tempo, de acordo com o amadurecimento do corpo em sua proficiência em deixar o Espírito Santo dirigir suas festas e assembléias. Porém, o que devem fazer as igrejas, quando crescem ao ponto de já não caber numa típica residência? De que tamanho é “muito grande”?

     Jesus usou uma analogia (uma parábola - Mateus 9:17, Marcos 2:22 e Lucas 5:37-39), comparando a colocação de vinho em novos e em velhos odres, ao defender Seus discípulos da falta de jejum. É claro que o vinho é mais importante do que o odre, mas o odre errado pode ser prejudicial ao vinho. A função é mais importante do que a forma, porém a forma errada pode inibir a função pretendida. 

     É sempre um risco (e, assim, questionável) especular sobre os propósitos de Deus pelos Seus atos. Todavia, Ele nos chama a aprender Seus caminhos (Salmos 25:4, 51:13 e 95:10). Deixe-me cautelosamente propor a razão pela qual a igreja do Novo Testamento é tão consistentemente retratada realizando suas reuniões em residências. Suspeito que a chave disso possa ser encontrada na descrição explícita de Paulo de uma reunião de igreja, na qual tudo deve ser feito “decentemente e com ordem” (1 Coríntios 14:40).

     Através de I Coríntios 14, Paulo compara práticas que são desordenadas e confusas com aquelas que são ordeiras e edificantes. Interessante é que a definição de Paulo do que seja “ordeiramente” é significativamente diferente do que muito de nós possa achar confortável, pelo menos numa reunião formal (o que pode ser a chave para entender o problema). Paulo acautela contra as práticas confusas como: falar em línguas que as pessoas não entendem, falar mais de uma pessoa ao mesmo tempo, haver liderança feminina no culto e outras coisas centralizadas no benefício de apenas um ou poucos, ao invés de oferecer edificação a todo o grupo. Então, ele contrasta isso tudo com descrição de ordeiras e edificantes experiências corporativas.

     Por exemplo, após pintar uma situação imprópria,  na qual “indoutos ou incrédulos” (presumivelmente crentes desinformados) entrassem quando “toda a igreja se reunisse num mesmo lugar, e todos falassem em línguas” e concluíssem que “porventura... estivessem loucos?” (1 Coríntios 14:23, parafraseado), Paulo então apresenta a alternativa correta. É muito interessante que se note que a melhor prática não é sentar-se passivamente e ouvir os entendidos expor as Escrituras. Ao contrário, Paulo diz que (1 Coríntios 14:24-25) “se todos profetizarem, e algum incrédulo ou indouto entrar, por todos é convencido, por todos é julgado”. O resultado final é que”prostrando-se sobre o seu rosto (isso seria hoje considerado ordeiro?), adorará a Deus, declarando que Deus está verdadeiramente entre vós” (final do versículo 25).

     O mais incrível é que essa profética participação de todos é o que Paulo quis dizer com “decentemente e com ordem”! Ele demonstra, no verso 26, que quando os irmãos se reúnem, cada um traz algo para ser feito para edificação. Essas coisas podem incluir um salmo, um ensino, línguas, uma revelação ou uma interpretação. Note que essa lista inclui coisas que podem ser planejadas antecipadamente, mas também coisas que não podem ser previamente preparadas.

     Pouco depois ele diz (verso 30) que, se alguém estiver falando e “a outro, que estiver sentado, for revelada alguma coisa, cale-se o primeiro”, que deve acolher com simpatia a interrupção e deixar o segundo irmão falar. Ele continua com a fenomenal alegação (verso 31) de que “todos podereis profetizar, cada um por sua vez”. Isso parece contradizer sua diretiva, feita a dois versos atrás, de que “falem os profetas, dois ou três, e os outros julguem”. Se apenas dois ou três pudessem profetizar e ele dissesse que todos poderiam profetizar, isso talvez quisesse dizer que haveria apenas dois ou três irmãos presentes. Ainda que eu duvide de que essa seja a interpretação correta da passagem, ela certamente aponta para reuniões relativamente pequenas.

     Na realidade, eu suspeito que a interpretação correta é a de que as profecias devem ser trazidas coloquialmente, entre dois ou três irmãos, com os ouvintes discernindo se eles estão ou não realmente ouvindo a voz do Pastor (João 10:3-5, 10:3-5 e 10:16 e 10:27). Isso soa como uma razoavelmente íntima conversação, com alguns participando e outros estando atentos à situação (inclinando seus corações), o que ocorre quando se ouve com os ouvidos e com os espíritos.

     Mesmo na parte seguinte, onde Paulo se dirige às mulheres, pedindo seu dinâmico silêncio (oferecendo pressão não explícita para que os homens exercessem a liderança), há um visível senso de contexto interativo da reunião, quando ele determina (1 Coríntios 14:35): “se querem aprender alguma coisa, perguntem em casa a seus próprios maridos”. Aparentemente, os homens deveriam estar livres para interagir durante as assembléias, colocando questões. É bem claro que as assembléias das igrejas, planejadas e pregadas pelos apóstolos, eram interativas, participativas, pessoais, íntimas e espontaneamente dirigidas pelo Espírito Santo. Além dessas características, eram também ordeiras, no sentido de que cada pessoa deveria considerar o benefício do grupo ao invés de buscar simplesmente sua própria edificação. Uma congregação está muito grande se todos seus integrantes não puderem participar íntima e efetivamente.

     Um fato interessante sobre as residências é que elas raramente são maiores do que o suficiente para facilitar a reunião de apenas algumas famílias. Penso que seremos sábios e estaremos cooperando com os desejos do Senhor, se projetarmos nossas casas para possibilitar, nelas, a reunião de grupos de santos. Porém, não seria possível que Deus tenha determinado que as igrejas se reunissem em casas, de maneira que o número de pessoas se mantivesse relativamente pequeno? Se for assim, poderemos estar arruinando Seu intento, quando pretendemos realizar assembléias em locais mais amplos.

     Se eu pudesse construir uma casa com uma sala que abrigasse uma reunião de 200 pessoas, isso seria uma ajuda para a igreja ou seria contrário ao desígnio do Senhor de manter os grupos relativamente pequenos? Eu duvido que o Senhor tenha prazer em nos impor limites quantitativos. Todavia, parece-me que existe um princípio geral ao qual devemos obedecer, acerca das reuniões conjuntas das congregações.

     Em 1993, pela quarta vez, nossa família começou a se reunir com algumas outras famílias, como igreja. Com o passar dos anos, o tamanho do grupo cresceu, embora às vezes tenha diminuído. Num dado ponto, sentimos que havíamos atingido um tamanho que já seria muito grande para um domicílio. Eu sugeri que considerássemos a procura de algum local mais amplo para as reuniões, mas o Senhor usou vários outros irmãos para nos convencer a não tomar esse caminho. Aparentemente, o Senhor ofereceu-nos uma solução, fazendo com que o tamanho do grupo diminuísse: num relativamente curto espaço de tempo, várias famílias se mudaram para outras regiões, aliviando a pressão de termos que lidar com a questão do que fazer se a congregação ficar muito numerosa para caber numa casa.

     Recentemente, o Senhor proporcionou novamente crescimento ao círculo de santos com os quais temos feito nossa caminhada. Existem hoje cinco famílias participantes vivendo em nossa comunidade de Springfield, Califórnia. Nossa proximidade geográfica permite a freqüência de contatos, encorajando-nos a caminhar juntos em relativa intimidade (embora reconheçamos o desejo do Senhor de trabalhar mais ainda em unir nossos corações ao redor Dele). Duas outras famílias estão em processo de mudança para Springfield. Outras duas famílias que moram a meia-hora de distância expressaram o desejo (e intenções reais) de se mudarem também. Mais duas famílias participantes vivem a essa mesma distância. Outras duas famílias, respectivamente a uma e a duas horas distantes, freqüentam os cultos já há vários anos. Finalmente, existem várias outras famílias que participam das reuniões semanais com freqüência relativa. Os que vivem mais longe são privados, pelas limitações geográficas,  da prática do que é recomendado em Hebreus 3:13: ‘‘exortai-vos uns aos outros todos os dias, durante o tempo que se chama Hoje”.

     Estamos claramente num ponto onde nem todos quantos querem se reunir conosco podem participar de um mesmo encontro num domicílio.  Se todas as famílias que reconhecemos como partes da congregação se reunirem numa mesma oportunidade, serão mais de noventa pessoas. E poderão ser ainda mais, se alguns dos visitantes mais freqüentes aparecerem.

     Precisamos discernir a direção do Senhor a respeito do que devemos fazer sobre essa situação.  Podemos nós mesmos tentar planejar uma saída, mas a probabilidade de chegarmos a uma abordagem que não O satisfaça é muito elevada. Salomão alerta por duas vezes (em Provérbios 14:12 e 16:25): “Há um caminho que ao homem parece direito, mas o fim dele conduz à morte”. Contudo, o Senhor fica aparentemente satisfeito de que nós ponderemos sobre Seus caminhos, revelados nas Escrituras, descobrindo o que Ele determina. Deixe-me considerar alguns possíveis enfoques que poderão ou não ser o que o Senhor orienta.

     Se bem que eu duvido seriamente que o Senhor nos levasse a procurar um local maior para acomodar a todos, esta é uma possibilidade que outras pessoas entenderiam como de agrado Dele. Porém, é uma possibilidade bem duvidosa.

    Poderíamos simplesmente não fazer nada. Isso poderia ser a vontade do Senhor, como em 2 Crônicas 20:17: “ficai parados e vede o livramento que o Senhor vos concederá”. É também possível que o Senhor providenciasse uma solução sem pedir a nenhum de nós que modificássemos o que tivéssemos feito. Ou Ele poderia ainda mandar-nos aceitar a aglomeração com alegria. Muitos de nós ouvimos histórias de congregações em países do terceiro mundo, sobre reuniões de grande número de pessoas em espaços minúsculos. Porém, como as coisas estão agora, poucas famílias têm demonstrado a intenção de abrir suas casas para cultos, alegando que não haverá espaço para todos. Tenho comigo que o incentivo para esquivar-se da hospitalidade é algo que devemos pedir ao Senhor que elimine.

     Outra possibilidade (ainda que remota) é que o Senhor poderia levar-nos a limitar o número de pessoas que seriam bem-vindas a se reunir conosco. Teríamos grupos fechados, sendo que, qualquer outro interessado em caminhar na mesma direção a que o Senhor nos orienta, teria que procurar outras pessoas para com elas se reunir. É tão duvidosa esta opção para mim, que eu desejo deixar aberta a porta para qualquer pessoa que o Senhor mandar.

     Uma opção que foi bastante discutida no movimento das igrejas domiciliares é a possibilidade óbvia da multiplicação, pela divisão em dois de um grupo maior. Isso poderia ser feito com base na localização geográfica das moradias dos irmãos ou baseada em qualquer outro método (número ou idade dos membros das famílias, interesses comuns, convicções, teologia, etc.). Entendo que distinguir uma igreja de outra com base em qualquer outra coisa que não a geografia, é o tipo de facciosismo (ou sectarismo), criticado por Paulo nos primeiros capítulos da primeira carta aos Coríntios. Escolher ter comunhão apenas com pessoas que são idênticas a mim representa uma tácita aceitação de divisões no corpo. Se eu concluir que alguém é verdadeiramente um membro do corpo de Cristo, então devo ter satisfação na comunhão com essa pessoa.

     Algumas famílias com as quais nos reunimos, que vivem um pouco mais longe do que o restante de nós, expressaram o temor de que nós pudéssemos dividir o grupo, transferindo-as para outro. É interessante que, se todas as famílias de fora de Springville se reunissem ao mesmo tempo, elas seriam exatamente o mesmo número daquelas que residem na cidade. Dividi-los dessa forma é certamente uma possibilidade que o Senhor tem. Entretanto, sinto que isso seria arbitrário e talvez muito mais fazer uma manipulação humana do que atender à direção do Espírito Santo.

    Nas Escrituras, a localização geográfica de uma igreja é a única base legítima para identificá-la dentre as demais. A igreja em Antioquia era uma com a de Jerusalém, mas todos entendem que eram duas igrejas distintas. Assim como só existe um corpo de Cristo, composto de todos os crentes, de todos os tempos, através do globo. Mas, existem diferentes igrejas (no plural), baseadas em coordenadas geográficas (e não em lealdades humanas, práticas distintas ou posições teológicas particulares).  Embora possamos admitir que a igreja moderna seja fragmentada, a solução é vê-la sob a perspectiva de Jesus. Existe então apenas uma igreja em Springfield, Califórnia, e todos os cristãos desta cidade são parte desta igreja, ainda que seja impossível que todos os cristãos de Springville se reúnam regularmente em um só lugar. Se não nos reunimos em apenas um lugar, por sermos muitos, como decidir onde nos reunirmos?

   Outra possibilidade seria agendar reuniões em horários diferentes e deixarmos que as pessoas participantes dessas assembléias escolhessem o horário de suas preferências. Esta é uma saída fácil considerada por igrejas institucionais que ultrapassam a capacidade de lotação de seus santuários. Poderíamos ter um culto mais cedo e outro mais tarde. As pessoas poderiam escolher de qual festa de amor desejassem participar. Poderiam, ainda, alternar a participação e, ocasionalmente, aproveitar ambas as festas. Talvez alguns dos irmãos que sentissem chamado especial para oferecer liderança à congregação pudessem levar isso ao ponto de participar de ambos os grupos.
Esses são tempos excitantes, no qual descobrimos o Senhor nos orientando por caminhos distintos das tradições que foram estabelecidas através dos séculos. Talvez,  se nos humilharmos frente a Ele, descubramos que não podemos inventar coisas diferentes e que somos totalmente dependentes da liderança do Espírito Santo, para que sejamos verdadeiramente alegria para a Noiva do Cordeiro.  

 

Parte Dois                                                Steve Atkerson (**)

     Quando os autores deste livro argumentam que o padrão do Novo Testamento é que cada igreja local deve ser pequena, ao invés de ser grande, não queremos dizer, com isso, apenas três ou quatro pessoas. Referimo-nos a pequena, no sentido de dezenas de pessoas, versus centenas ou milhares delas. Haver muito poucas pessoas numa igreja pode ser tão problemático quanto haver muitas.  Qual a evidência escriturística existente sobre o número de membros envolvidos nas igrejas domiciliares do Novo Testamento?

     Existia apenas uma igreja domiciliar em Corinto. Em sua carta aos Romanos, escrita de Corinto, Paulo diz que “saúda-vos Gaio, hospedeiro meu e de toda a igreja” (Romanos 16:23). Gaio hospedava a toda a igreja de Corinto em sua casa. A mensagem contida em 1 Coríntios 1:2 saúda “a igreja de Deus em Corinto”, sugerindo que havia apenas uma igreja naquela cidade, não várias igrejas.

     Em 1 Corintios 11, verso 17 em diante, é revelado que havia abusos na Ceia do Senhor em Corinto. Existiam profundas divisões de classes e, em função disso, os ricos se recusavam a comer com os pobres, comparecendo ao local da assembléia bem cedo. Quando os pobres finalmente chegavam, provavelmente após o trabalho, os ricos haviam já almoçado e nenhum alimento restava. A natureza desse abuso demonstra que os ricos e os pobres estavam todos na mesma igreja, reunindo-se no mesmo local. Não havia assembléias em diferentes locais em Corinto, para a Ceia do Senhor. Os ricos evitavam os pobres chegando em horários diferentes e não indo a locais diferentes.

    Na primeira carta aos Coríntios, em 5:4-5, Paulo trata do irmão imoral que precisou de disciplina. Ele escreveu: “Quando vocês estão reunidos em nome do Senhor Jesus, quando estou com vocês em espírito e o poder de Nosso Senhor Jesus está presente, entreguem esse homem a Satanás” (versão em inglês NIV). Paulo claramente escreveu isso como se todos os crentes em Corinto estivessem juntos no mesmo lugar. 

     O Senhor Jesus esboçou o processo de disciplina na igreja em Mateus 18. Veja o número de pessoas potencialmente envolvidas: o pecador, o irmão ofendido e as duas ou três testemunhas. Isso soma quatro ou cinco pessoas. Depois disso, a igreja inteira pode ser envolvida. Presumivelmente, o número de pessoas no resto da igreja não será apenas mais uma (a quinta ou sexta); possivelmente haverá no mínimo o mesmo número de pessoas envolvidas no processo de disciplina (ao menos quatro). Isso quer dizer que Jesus anteviu uma igreja típica contendo, no mínimo, 8 adultos. É provável que muitos mais houvesse na igreja, além dos envolvidos nos passos iniciais do processo disciplinar. Na época em que Jesus ensinou isso, o sistema das sinagogas exigia que houvesse no mínimo dez homens numa localidade para que uma sinagoga fosse formada. Se esse princípio geral foi usado nas igrejas, então dez homens com suas esposas preenchiam o número da uma vintena de membros. Acrescentem-se as crianças e teríamos uma casa cheia!

     Ainda outro indicador de que em Corinto havia uma só igreja e que o local de reunião era apenas um, encontramos em 1 Coríntios 14:23: “Se, pois, toda a igreja se reunir num mesmo lugar, e todos falarem em línguas, e entrarem indoutos ou incrédulos, não dirão porventura que estais loucos?”.

     Um exame dos vários dons apresentados na assembléia de Corinto sugere que havia cerca de vinte pessoas naquela igreja. Três pessoas que falavam em línguas, um intérprete e três profetas são mencionados em 1 Coríntios 14:27-32, totalizando sete pessoas. Acrescente mais uma pessoa com um hino a outra com uma palavra de instrução (14:26) e o total chega a nove. Considere as mulheres (que não falavam, 14:33-35) e o número de adultos chega aos dezoito. Cerca de doze diferentes dons espirituais são mencionados em1 Coríntios 12:7-31, sendo que todos estavam operacionais em Corinto. Essa realmente era uma igreja de dimensões adequadas! Qual era o tamanho da igreja domiciliar em Corinto? Claramente não era o caso de “nós quatro e ninguém mais”. Havia dúzias de pessoas nessa igreja domiciliar, não centenas, nem milhares delas e muito menos apenas uma ou duas famílias. Quando visualizamos a dimensão da típica igreja domiciliar do Novo Testamento, podemos perceber uma residência lotada com dezenas de crentes. Então, por analogia, nas nossas igrejas de hoje, precisamos pensar pequeno!

    Muitas pessoas envolvidas com as igrejas domiciliares poderão não se sentir satisfeitas em igrejas convencionais, com centenas ou milhares de pessoas. Elas também poderão estar desconfortáveis em igrejas domiciliares com muito poucas pessoas. A igreja deve ser vibrante e crescer, atingindo novas pessoas com o evangelho. Nesse caso, uma norma prudente é ter a dúzia como unidade de contagem das pessoas.

     Você deve estar indagando como uma residência pode acomodar tantas pessoas para o culto. É interessante que o Novo Testamento frequentemente indica que a igreja se reunia na casa da mesma pessoa. Por exemplo, Paulo enviava saudações para a igreja que se reunia na residência de Priscila e Áquila (Romanos 16:3-4), à igreja que se reunia na casa de Ninfa (Colossenses 4:15) e à igreja que se reunia no domicílio de Filemom (Filemom 1:2). Essas assembléias não faziam rodízio de casa em casa. Isso pode ter como razão o fato de esses crentes possuírem casas grandes o bastante para acomodar as reuniões de toda a igreja. Se a norma for uma igreja domiciliar ter cerca de uma vintena de pessoas e a casa de alguns dos membros for demasiado pequena para acomodar tanta gente, a igreja não será capaz de realizar seus encontros nessa casa. A história da igreja primitiva revela que a igreja se reunia nas residências de seus membros de maiores posses, presumivelmente pelo fato de terem eles casas com capacidade de abrigar a um maior número de pessoas.

    É razoável que se espere que um corpo de crentes, que anda com o Senhor e irradia luz numa comunidade em trevas, atraia novos membros. À medida que uma igreja domiciliar cresce numericamente, espaço passa a valer ouro. Historicamente, os crentes resolveram esse problema (e esse é um dos grandes), construindo edifícios cada vez maiores para abrigar mais pessoas. Entretanto, o padrão do Novo Testamento não é a construção de prédios especiais para acomodar mais pessoas do que aquelas que cabem numa sala de visitas. Também não existe no Novo Testamento nenhum padrão para a divisão de uma igreja domiciliar. O testemunho apostólico faz silêncio sobre como a igreja primitiva abordava o crescimento do número de crentes. Desde que nenhum outro padrão do Novo Testamento fosse violado, isso era assunto da liberdade no Senhor.

      Pessoas resistem à divisão (e é compreensível que assim seja), porque a perspectiva de perder relacionamentos é muito dolorosa. Outras justificam que a falta de líderes qualificados para os novos grupos pode resultar em desastre.

     Outra preocupação é que num trabalho novo, pioneiro, aqueles que não sejam maduros podem abandonar a igreja (a vida dos pioneiros pode ser dificultosa). Ainda outra razão para resistir à divisão é a preocupação de que a nova igreja possa tomar decisões que sejam diferentes das antigas da igreja original, o que poderia gerar conflitos.  Todos os temores acima são válidos.

      Razões menos válidas para a divisão incluem: hospedar um número elevado de pessoas gera muito trabalho; haverá muitas crianças traquinas para cuidar; menor quantidade de diferenças teológicas torna a convivência mais fácil, sem necessidade de muitas discussões ou de maior tolerância. Os motivos são importantes: qual a razão para a divisão? Será por motivos egoístas ou para melhor servir ao corpo de Cristo?

     Por outro lado, talvez seja oportuno considerar que, num trabalho novo, quando muitas pessoas freqüentam regularmente as reuniões de 1 Coríntios 14,  fica difícil para todos os que desejam participar. Outro indicador de que é tempo de inaugurar uma nova igreja é a constatação de que a casa onde acontecem as reuniões já não acomoda mais aos freqüentadores – não existe mais lugar para ninguém sentar. Também, um grupo maior sempre resulta em alguma perda de intimidade e consideração (um elo que apenas poucos amigos podem manter). Uma igreja menor encoraja aos mais tímidos a se expressarem e a se tornarem servos-líderes (crescendo no aprendizado).

     No final, isso se transforma numa questão de capacidade. Em uma igreja que deseje ser usada por Deus e ser, cada vez mais, benção para outros, novas pessoas precisam ser, de alguma maneira, bem recebidas e acomodadas. Para começar, é preciso que haja espaço para que essas pessoas possam ser acomodadas na casa aonde o culto irá se realizar! A única solução bíblica de longo prazo para esse problema é o início de uma nova igreja. Idealmente, a nova igreja deverá ter líderes qualificados, manter estreito contato com a igreja de origem, ter presentes professores qualificados, músicos, pessoas desejosas de hospedar a igreja em suas casas, ser uma equilibrada mistura de pessoas jovens e mais idosas, etc. Mas, isso é o ideal. Nem tudo isso é necessário. A principal exigência é de que haja presentes algum tipo de liderança madura e supervisão, ambas através de um apóstolo ou da igreja-mãe. (É preciso que se enfatize que ninguém deve ser pressionado, forçado ou ordenado a fazer alguma coisa sobre onde - em que lugar - deve participar da igreja. O governo da igreja deve ser por consenso, não por comando. Não deve haver pressão arbitrária nem impositiva sobre quem vai, aonde vai ou quando vai).

     Nas igrejas melhor estabelecidas é usual que existam aqueles que são verdadeiramente comprometidos, aqueles que se afastam da conveniência, mas não acreditam realmente em seguir os padrões do Novo Testamento, aqueles que vivem próximos e formam o cerne da comunidade, aqueles que viajam diariamente longas distâncias, aqueles que são celibatários (solteiros) e também aqueles que trabalham como orientadores (anciãos). Essa mistura deve ser levada em consideração pela liderança, quando do planejamento da criação de uma nova igreja a partir de outra já existente. Em resumo, uma igreja tem várias opções quando sua capacidade total de acomodação é alcançada:

  1. Permanecer igual e cessar de crescer numericamente. Nesse cenário, recém-chegados eventualmente seriam vistos como problemas. Sentindo isso, visitantes poderiam não voltar outras vezes ou procurarem comunhão com quem os acolhesse com alegria. Certamente, esta não é a solução de Deus! Seu reino, como o fermento misturado na massa do pão, deve crescer e se espalhar. Trabalhemos para o Senhor e não contra Ele!
  2. Construir prédios cada vez maiores para abrigar mais pessoas. Essa é a opção mais comumente escolhida, porém ela viola os padrões do Novo Testamento. O problema é que demasiadas pessoas presentes numa mesma igreja começariam a descaracterizar o propósito mesmo de se reunirem numa assembléia de  igreja. Tamanho não é necessariamente indicação de saúde, de força (gordura não é músculo). Grande número de presentes tornaria impossíveis as reuniões de 1 Coríntios 14 (que foi como os cultos começaram). Com muitas pessoas presentes, a Ceia do Senhor como uma refeição completa ainda poderia ser realizada, mesmo que com dificuldade, mas seria quase impossível conversar com alguém durante o transcurso da refeição. A intimidade seria perdida e a consideração começaria a sofrer. Ir realmente a fundo nos vários assuntos que as pessoas apresentassem seria problemático. A igreja passaria a ser mais como uma empresa do que como uma família.
  3. Dividir a igreja mais ou menos igualmente, dividindo forças e fraquezas da forma mais justa possível, da forma como as pessoas fossem sendo dirigidas pelo Espírito (e não por coerção).
  4. Enviar pequenas partes do grupo principal para criar novos trabalhos. Por exemplo, dois terços dos membros permaneceriam na igreja principal, enquanto que um terço iria trabalhar fora dela. O grupo que formasse a nova igreja teria a responsabilidade, dada por Deus, de realizar a tarefa – não haveria nenhuma queda de braço no processo.


     No fim, alguém poderia perguntar: “O que pensa o Senhor disso tudo? Qual é o desejo do Senhor para Sua igreja?”. Fiquemos sintonizados na freqüência do Senhor e vejamos o que Ele tem a dizer!

              
       
                                                                                     Tradução de Otto Amaral


(*) Jonathan Lindvall e sua esposa Connie ministraram pessoalmente as matérias do ensino formal aos seus seis filhos em casa. Sua família é membro de uma igreja domiciliar em Springville,  na Califórnia, Estados Unidos. Jonathan é o administrador local de um ministério de escolas domiciliares e presidente da Vida Cristã com Ousadia, dirige o Seminário de Convivência Familiar com Ousadia, o Seminário da Juventude Cristão com Ousadia, seminários sobre igreja domiciliar e outros eventos similares. Ele possui uma profunda formação em educação pública e privada, ministério pastoral e comunicação. É graduado B.A. em Bíblia, Teologia e Ciências Sociais pelo Bethany Bible College, de Santa Cruz, na Califórnia. Tem também o Mestrado em Administração Educacional pela Universidade Estadual da Califórnia, em Bakersfield. Ele pode ser contatado no site www.boldchristianliving.com

(**) Steve Atkerson e sua esposa Sandra vivem no norte da Geórgia (Estados Unidos), com seus três filhos, aos quais ministraram educação formal em casa. Steve formou-se na Georgia Tech e trabalhou em eletrônica industrial antes de ir para o seminário. Depois de graduado Mestre em Divindade pelo Mid America Baptist Theological Seminary, em Memphis, serviu por sete anos como pastor da Igreja Batista do Sul. Ele demitiu-se em 1990 para trabalhar com igrejas que desejavam seguir as tradições apostólicas em suas práticas. Ele viaja e ensina onde o Senhor abre as portas da oportunidade. Steve é também ancião na igreja domiciliar que ajudou a fundar em 1990, além de ser professor, palestrante itinerante e presidente da NTRF (Fundação para Restauração do Novo Testamento), autor dos livros The practice of the Early Church: A Theological Workbook, do Equipping Manual e é editor e autor de artigos do livro Ekklesia: To the Roots of Biblical House Church Life.

 

 
 
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      Atualização de 15 de setembro -
    LEIA O NOVO ARTIGO:

   - QUEM MATOU JESUS?

    Interessante estudo sobre as pessoas e
     as entidades que, no plano terreal, foram
     instrumentos na concretização do drama
     do Calvário.
     Análise bíblica e jurídica do processo for-
     jado contra Jesus para levá-lo à morte.
     E se Ele voltasse hoje, nas mesmas con-
     dições, como seria?
     Quem quereria matá-lo de novo?

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     Solicitamos, porém, que sejam      mencionados seu endereço eletrônico, o      título e o autor da matéria.