Assim se escrevia, em caracteres gregos, (a lingua do Novo Testamento), o nome da igreja de Jesus, no tempo dos apóstolos: Ekklesia Iesous Cristos (Assembléia de Jesus Cristo).

"Antes crescei na graça e no
conhecimento de nosso Senhor
e Salvador Jesus Cristo"
(II Pedro 3:18)
 
 
 
   

A Ceia do Senhor:
Banquete ou migalhas?
                                          Steve Atkerson (*)

A comida é, como se costuma dizer, “o que tiver”. Todos trazem alguma coisa para dividir com alguém. Quando o tempo está bom, todo o alimento é colocado numa mesa dobrável no abrigo dos carros. Uma pequena mesa quadrada em cada ponta, contém os refrigerantes, copos, garfos, guardanapos, etc. Uma grande vasilha plástica, no chão ao lado das mesinhas, tem uma boa quantidade de cubos de gelo. As crianças correm em volta de tudo isso com tanta alegria que é preciso que seus pais as interrompam e as segurem para que comam alguma coisa. Depois de uma oração de agradecimento, as pessoas se alinham em fila, conversando e sorrindo, para servirem seus pratos. Em meio a todo o alimento, fica um simples filão de pão, ao lado de uma grande jarra plástica contendo suco de uvas. Cada crente participa do pão e do suco, enquanto na fila. As crianças menores são encorajadas a ocupar um dos não muitos lugares à mesa. Elas são, como sempre, bagunceiras. As cadeiras dos adultos (normalmente não há o suficiente para todos) são agrupadas em círculos, ocupadas principalmente pelas mulheres, que comem enquanto conversam sobre aulas em casa, treinamento infantil, costura, algum evento social futuro, a nova igreja que estamos para iniciar, etc. Muitos dos homens comem de pé, equilibrando seus pratos sobre os copos, reunidos em pequenos grupos, resolvendo os problemas do mundo ou ponderando sobre algum contraditório tópico de teologia. A atmosfera não é a de um banquete de casamento. A ocasião é de um especial tempo de congraçamento, encorajamento, edificação, amizade, carinho, apoio, conhecimento mútuo, orações solidárias, exortação e amadurecimento. Qual é a razão desse evento? No caso de você ainda não o ter reconhecido, esta é a Ceia do Senhor, no estilo do Novo Testamento!

Por estranho que possa parecer às igrejas nossas contemporâneas, as igrejas do primeiro século se alegravam na Ceia do Senhor, de forma a fazer dela uma antevisão do futuro banquete das bodas do Cordeiro. Não foi somente após o fim da era do Novo Testamento, que os pais das igrejas alteraram a Ceia do Senhor, de sua forma original, para um serviço memorial, isto é, comemorativo. Nós advogamos a volta à forma original instituída por Cristo e Seus apóstolos.

Sua Forma e Objetivo: uma Festa e o Futuro

Verdadeiramente, a primeira Ceia do Senhor é também chamada de a Última Ceia por haver sido a última refeição da qual Jesus Cristo compartilhou com seus discípulos, antes de Sua crucificação. A ocasião foi a Páscoa. Naquele banquete de Páscoa, Jesus e Seus discípulos se reclinaram numa mesa muito farta (Êxodo 12, Deuteronômio 16). A tradição judaica nos diz que esses banquetes duravam normalmente várias horas!  Durante a refeição, “enquanto comiam” (Mateus 26:26), Jesus tomou uma fatia de pão e a comparou com seu corpo. Ele tomou também um copo e fez com que todos tomassem dele. Em seguida, “depois de cear” (Lucas 22:20), Jesus pegou novamente o copo e o comparou com seu sangue, que seria brevemente derramado. Assim, o pão e o vinho da Ceia do Senhor foram introduzidos no contexto da ceia completa, a Páscoa. Teriam os Doze talvez deduzido que a então recém-instituída Ceia do Senhor não se destinava a ser uma ceia real? Ou teriam assumido naturalmente que ela era um banquete, assim como o da Páscoa?

“A Páscoa celebrava dois eventos: a libertação do cativeiro no Egito e a antecipação da vinda do Messias” (Reinecker, Linguistic Key to Greek NT, p.207).Logo após essa Última Ceia, Jesus se tornaria o último carneiro sacrifical da Páscoa, sofrendo na cruz para libertar Seu povo de seus pecados. Jesus entusiasticamente desejara comer a Páscoa com seus discípulos, dizendo que “nunca mais a comerei, até que ela se cumpra no reino de Deus” (Lucas 26:16). Note que Jesus olhou para o futuro, para um tempo no qual Ele poderia “comer” a Páscoa “novamente” no reino de Deus. O “cumprimento” (Lucas 22:16) disso evidentemente foi depois escrito por João em Apocalipse 19:7-9. Ali, um anjo declara: ”Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro”. A Última Ceia e as Ceias do Senhor das primitivas igrejas eram voltadas para seu cumprimento na ceia do casamento do Cordeiro. (E que melhor forma de representar um banquete, do que com banquete?).

Seu futuro banquete de núpcias esteve muito na mente de nosso Senhor naquela noite. Ele mencionou isso no início da ceia de Páscoa (Lucas 22:16). Ele o mencionou novamente quando oferecendo o copo e dizendo: “não mais beberei do fruto da videira, até que venha o reino de Deus” (Lucas 22:18). Depois da ceia, ainda uma vez mais, Ele se referiu ao assunto: “Assim como meu Pai me confiou um reino, eu vo-lo confio, para que comais e bebais à minha mesa no meu reino...” (Lucas 22:29-30).

Enquanto os gentios do século 21 associam o céu com nuvens e harpas, os judeus do primeiro século imaginavam o céu como um tempo de banquete à mesa do Messias. A idéia de comer e beber à mesa do Messias foi uma imagem comum no pensamento judeu do primeiro século. A respeito, um líder judeu disse certa vez a Jesus: “Abençoado é o homem que comerá o banquete no reino de Deus” (Lucas 14:15). Em Mateus 8:11 Jesus mesmo disse que “muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus”.

O ato de comer que é associado com a volta do reino de Cristo é visto também na oração modelo de Mateus 6:9-11. Referindo-se ao Reino, Jesus nos disse para orar assim: “venha o teu reino”. A sentença imediatamente seguinte é “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje”. Interessante é que a frase grega empregada em 6:11 é de difícil tradução. Literalmente, ela significa algo como “o pão nosso pertencente ao dia seguinte dá-nos hoje”. Ligando 6:11 com 6:10, Jesus bem poderia estar nos ensinando a pedir que o pão do banquete Messiânico (o reino que estamos pedindo que venha) nos seja dado hoje!

O mais extensivo tratamento sobre a Ceia do Senhor está nos capítulos 10 e 11 de I Coríntios. As profundas divisões dos crentes de Corinto resultaram que seus encontros para a Ceia do Senhor faziam mais mal do que bem. (11:17-18).Eles estavam participando da Ceia de uma maneira “indigna” (11:17). Evidentemente os ricos, não desejando comer com os de classe social mais baixa, iam para o encontro mais cedo e permaneciam por tanto tempo que alguns chegavam a se embriagar. Piorando as coisas, quando os trabalhadores chegavam, retardados por razões de seus serviços, o alimento havia se acabado e eles iam embora com fome (11:21-22). Alguns dos de Corinto falharam ao deixarem de reconhecer que a Ceia era sagrada e que era uma refeição também de compromisso, de pacto (11:23-32). Os abusos foram de tal monta que eles deixaram de realizar a Ceia do Senhor (11:20) e instituíram sua “própria” ceia (11:21). Então, Paulo perguntou: “Não tendes, porventura, casas onde comer e beber?”. Se o objetivo fosse que alguém meramente comesse sua ceia, um jantar privado em casa poderia ser realizado. O pecado do egoísmo havia traiçoeiramente roubado a própria essência do que era a Ceia do Senhor.

Pela natureza do abuso cometido, é evidente que a igreja de Corinto regularmente partilhava da Ceia do Senhor como uma verdadeira e completa refeição. Em contraste, ninguém hoje vai a uma Ceia do Senhor esperando ter sua fome física satisfeita, nem seria possível se embriagar, ao tomar um minúsculo copo de vinho (e, menos ainda, de suco de uva). Entretanto, a inspirada solução para o abuso dos coríntios contra a Ceia do Senhor não foi a de que a igreja deixasse de toma-la como uma refeição verdadeira. Ao contrário, Paulo escreveu: “... quando vos reunis para comer, esperai uns pelos outros”. Apenas os esfaimados, os indisciplinados e os egoístas que não podiam esperar pelos outros eram instruídos a “comer em casa” (I Coríntios 11:34). Paulo escreveu à igreja de Corinto cerca de 20 anos depois de Jesus haver participado de sua Última Ceia. Justamente por ter sido a Última Ceia uma refeição verdadeira, é que os coríntios entenderam que a Ceia do Senhor deveria ser também uma ceia verdadeira.

Especificamente, a palavra grega para “ceia” (I Coríntios 11:20) é deipnom, que representa “jantar, refeição principal da noite, banquete”. Ela jamais se refere a algo menos do que uma refeição completa, nunca se refere a algo como um antepasto, um lanche ou um “couvert”. Por que razão os autores do Novo Testamento usariam deipnom para se referirem à “Ceia” do Senhor, se ele não fosse realmente uma verdadeira ceia? A Ceia do Senhor originalmente continha muitas reminiscências. Como uma refeição completa, ela prefigurava o banquete do reino vindouro, a ceia das bodas do Cordeiro.

A opinião dos estudiosos apresenta claramente a conclusão de que a Ceia do Senhor foi originalmente comida como uma refeição completa. Donald Guthrie, no livro The Lion Handbook of the Bible, afirma que “nos primeiros tempos a Ceia do Senhor acontecia durante uma refeição comunal. O que sobrava era levado, pois era dividido igualmente entre todos”. O Dr. John Drane, em The New Lion Encyclopedia, comenta que “Jesus instituiu essa refeição comum no tempo da Páscoa, como a última ceia compartilhada com seus discípulos antes de sua morte”... a Ceia do Senhor volta-se para trás, para a morte de Jesus, mas volta-se também para frente, para o tempo de Sua volta! Durante o período do Novo Testamento a Ceia do Senhor foi uma refeição verdadeira, compartilhada nos lares dos cristãos. As deformações na realização da Ceia começaram a ocorrer somente depois que ela começou a ser realizada em prédios especiais, depois que as orações e louvores originados das sinagogas e de outras origens foram enxertadas no cristianismo nascente, para a criação de uma grande cerimônia. J. G. Simpson, numa citação sobre a eucaristia, no livro The Dictionary of the Bible (O Dicionário da Bíblia), observa que “o nome Ceia do Senhor, não obstante derivado de I Coríntios 11:20, não é aqui aplicado ao sacramento em si mesmo, mas ao Banquete de Amor ou Ágape, uma refeição comemorativa da Última Ceia e ainda não separada da Eucaristia, quando Paulo escreveu”. Canmon Leon Morris, em seu Commentary on the 1 Corinthians for the Tyndale New Testament Commentaries (Comentário a I Coríntios para os Comentários do Novo Testamento Tyndale) insiste que I Coríntios 11 ”revela que, naquela fonte, a Sagrada Comunhão não era simplesmente uma comemoração, como hoje entre nós, mas uma refeição real. Além do mais, é bem claro que era uma refeição para a qual cada um dos participantes trazia comida”. Howard Marshal, em Christian Beliefs (Crenças Cristãs) ressalta que a Ceia do Senhor “foi observada por Seus discípulos, primeiramente como parte de uma refeição comunal, domingo após domingo”.

 

Suas funções:

A – Relembrar a Jesus

O ato de partilhar o pão e o vinho tinha importantes funções. Uma delas era relembrar a Jesus Sua promessa de retorno. “Relembrar” a Deus de Suas promessas é um conceito inteiramente bíblico. Na aliança que Deus fez com Noé, Ele prometeu não mais destruir a Terra por inundação, deixando como fiança disso o arco-íris. Esse símbolo existe certamente para relembrar ao Senhor da promessa, tanto que Ele declarou, em Gênesis 9:16: “quando o arco-íris aparecer nas nuvens, eu o verei e relembrarei do eterno pacto entre Deus e todas as criaturas viventes, de todos os gêneros, na Terra”.  Mias tarde, em uma história de redenção, como parte de seu pacto com Abraão, Deus prometeu dar aos israelitas livramento de seu cativeiro no Egito. Ao mesmo tempo, “Deus, ouvindo seus gemidos, lembrou-se de seu pacto com Abraão, Isaque e Jacó. E viu Deus os filhos de Israel e atentou para a sua condição” (Êxodo 2:24-25). Durante o cativeiro babilônico, Ezequiel se lembra de que Deus prometeu a Jerusalém: “Eu me lembrarei da aliança que fiz contigo” (Ezequiel 16:60).

A Ceia do Senhor é o símbolo da Nova Aliança. Quando Jesus pegou o copo, disse: “... isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados” (Mateus, 26:28). E, como qualquer símbolo, ele serve como lembrete. Assim, Jesus disse que devemos partilhar o pão “... em memória de mim” (Lucas 22:19). A palavra grega para “memória” é anamnesis e significa “lembrete”. Traduzido literalmente, Jesus disse: “faça isso para meu lembrete”.  A questão que se nos apresenta agora é se esse lembrete é principalmente para Jesus ou para nós. A frase “de mim” ou “meu” é traduzida de uma só palavra grega, emos, que gramaticalmente denota posse (isto é, o lembrete pertence a Jesus). Então, a igreja partilhará o pão na Ceia do Senhor especificamente para relembrar Jesus de Sua promessa de retornar e comer a Ceia novamente, em pessoa (Lucas 22:16, 18). Compreendida dessa forma, a frase foi originalmente criada para ser como que uma oração pedindo a Jesus que retorne (“... venha o teu reino”, Mateus 6:10). Assim como o arco-íris relembra Deus de seu acordo com Noé, assim como os gemidos relembram Deus de seu concerto com Abraão, também o partilhar do pão na Ceia do Senhor foi criado para relembrar Jesus de Sua promessa de retornar. Colin Brown cita J. Jeremias como entendimento de que Jesus usou anamnesis no sentido de um lembrete para Deus, ”A Ceia do Senhor deveria então ser uma oração interpretada, representada” (NIDNTT, III, pág. 244).

Paulo, em I Coríntios 11:26 confirma essa idéia, ao declarar que a igreja, ao comer a Ceia do Senhor, realmente “proclama a morte do Senhor, até que ele venha”. Para quem ela proclama Sua morte, e por que? Provavelmente, essa proclamação seria para o Senhor mesmo, como um lembrete para Ele retornar. É importante sabermos que a palavra grega para “até que” é aschri hou. Quando usada no subjuntivo, ela gramaticalmente pode denotar uma meta, um objetivo (Reinecker, Linguistic Key to the Greek NT., pág. 34). De acordo com o uso em nossa língua, eu posso usar um guarda-chuva “até que” pare de chover, meramente denotando um espaço de tempo. (Usar o guarda-chuva nada tem a ver com a interrupção da chuva). Porém, não foi assim que “até que” foi usado I Coríntios 11:26.  Paulo instruiu a igreja a partilhar o pão e o vinho como um meio de proclamar a morte do Senhor (como um lembrete) “até que” (o objetivo a ser alcançado) Ele seja convencido a voltar! Assim, ao proclamar Sua morte através do pão e do vinho, a Ceia lança a vista ao futuro e antecipa Seu retorno.

A idéia de tentar persuadir ao Senhor a retornar não é diferente do apelo dos santos mártires de Apocalipse 6, que clamaram: “Até quando, ó Soberano, santo e verdadeiro, não julgas e vingas o nosso sangue dos que habitam sobre a terra?” (Apocalipse 6:10). O que tinha Pedro em mente, quando escreveu que seus leitores deveriam olhar para frente, para o dia de Deus e “esperar avidamente” sua volta? (II Pedro 3:12). Se fosse inútil tentar persuadir Jesus a voltar, então porque Ele instruiu Seus discípulos a orar “Venha o teu reino, seja feita a tua vontade...?” (Mateus 6:10).

 

B – Gerar Unidade

Toda essa ênfase na Ceia do Senhor como uma refeição real e completa não representa que desejemos afastar o pão e o vinho, como representativos do corpo e do sangue do Senhor. Ao contrário, eles continuam uma parte importante da Ceia. Mas, assim como o modelo da Ceia do Senhor é importante (uma refeição de amizade que prefigura a ceia das bodas do Cordeiro), também o modelo do pão e do vinho é importante. Paulo fez menção a “o” cálice de bênçãos e a “o” pão (I Coríntios 10:16-17). O significado de usarmos um copo e um pão na Ceia é que “O pão que partimos, não é porventura a comunhão do corpo de Cristo? Pois nós, embora muitos, somos um só pão, um só corpo; porque todos participamos de um mesmo pão” (I Coríntios 10:16-17). O pão único, não apenas ilustra nossa unidade em Cristo, mas de acordo com o verso 17 da passagem acima, inclusive gera unidade. Atente cuidadosamente para as palavras do inspirado texto: o pão é a comunhão do corpo de Cristo – conseqüentemente, nós somos um só corpo, “porque” todos partilhamos de um só pão (I Coríntios 10:17). Compartilhar de um monte de migalhas de biscoito salgado e de uma boa quantidade de copinhos de vinho nos traz a imagem de divisão e individualidade. Enfim, isso afasta completamente a idéia de união. E, o que é pior, isso impediria o Senhor de usar o pão único para criar a unidade no corpo de crentes.

 

C – Comunhão

Falando à igreja de Laodicéia, Nosso Senhor ofereceu-se para voltar e “comer” (deipneo, em grego) com todos os que ouvissem sua voz e abrissem sua porta, numa cena de confraternização e comunhão (Apocalipse 3:30). A idéia de que confraternização e aceitação são representadas por comer em comum é derivada, não só da cultura judaica dos tempos de Jesus, mas também das antigas Escrituras.  Êxodo 18:12 revela que Jetro, Moisés, Aarão e todos os anciãos de Israel foram “comer o pão” na “presença de Deus”. Mais um divino banquete ocorreu no concerto do Monte Sinai, quando Moises, Aarão, Nadab, Abiu e os setenta anciãos de Israel foram ao Monte Sinai, onde “eles viram a Deus e comeram e beberam” (Êxodo 24:9-11). É muito significativo que “Deus, porém não estendeu a sua mão contra eles” (Êxodo 24:11).  Eles foram aceitos por Deus, como evidenciado pela refeição sagrada que eles comeram na Sua presença.

A comunhão através do comer em conjunto tem seqüência no livro de Atos, onde aprendemos que a igreja primitiva se devotava ao “congraçamento no partir do pão” (2:42). Nas versões da Bíblia em português, essa passagem (2:42) está assim: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações”. Nas versões em inglês, na parte sublinhada acima, não há a separação da vírgula nem o “no” depois dela. Assim, traduzida literalmente, ela ficaria assim: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão partir do pão e nas orações”. Essa segunda forma é mais correta, pois em grego as palavras “comunhão” e “partir do pão” são ligadas entre si, denotando atividades simultâneas. Eles tinham comunhão uns com os outros, quando partiam o pão em comum. Lucas nos informa que essa refeição era realizada com “alegria e singeleza de coração” (Atos 2:46). Assim, soa convidativo, não é? Muitos comentários associam, no livro de Atos, a frase “partindo o pão” com a Ceia do Senhor. Por isso é que Lucas, que escreveu Atos, registrou no seu evangelho que Jesus tomou o pão “e o partiu” na última ceia (Lucas 22:19). Se essa conclusão é correta, então a igreja primitiva festejava a Ceia do Senhor como um momento de comunhão e alegria, exatamente como fazemos hoje numa festa de casamento.

 

Sua freqüência: semanal

Nós vimos então a forma original da Ceia do Senhor (uma refeição completa, com um copo de vinho e um pão) e a perspectiva (olhando para o futuro). Um aspecto final e importante precisa ser considerado: sua freqüência. Quando a igreja do Novo Testamento compartilhava da Ceia? Os católicos romanos estão certos nesse aspecto. Os antigos cristãos comiam a Ceia do Senhor semanalmente, sendo esta a principal razão deles se reunirem todos os domingos.

A primeira evidência é gramatical. A expressão “Dia do Senhor”, em grego, é kuriakon hemeran, que literalmente significa “o dia pertencente ao Senhor” (Apocalipse 1:10).  As palavras “pertencente ao Senhor” vêm de kuriakos, que ocorre só no Novo Testamento nesta citada passagem de Apocalipse e em A I Coríntios 11:20, onde Paulo a emprega para se referir à Ceia do Senhor ou à “Ceia pertencente ao Senhor” (kuriakon deipnon). A conexão entre esses dois usos não pode ser esquecida - se o propósito da reunião de domingo é o de celebrar a Ceia do Senhor, somente faz sentido que essa ceia pertencente ao Senhor seja comida no dia também pertencente ao Senhor, o domingo. A revelação dada a João (Apocalipse 1:10) evidentemente ocorreu no primeiro dia da semana, no dia em que Jesus ressuscitou dos mortos e no dia em que a igreja primitiva se reunia para comer a Ceia pertencente ao Senhor. Esse dia especial, a ressurreição e a ceia são partes que constituem uma mesma perspectiva!

A segunda evidência é que a única razão apresentada no Novo Testamento, para a reunião semanal da igreja, é a de comerem juntos a Ceia do Senhor.  Em Atos 20:7, sabemos por Lucas que “no primeiro dia da semana, tendo-nos reunido a fim de partir o pão...”. A palavra grega para “a fim de” é um infinitivo que denota um propósito ou objetivo. O encontro era um banquete! Outra passagem do Novo Testamento em que o propósito para uma reunião da igreja é declarado é I Coríntios 11:17-22.  As reuniões (11:17) eram realizadas mais para o mal do que para o bem, porque quando os crentes se “reuniam na igreja” (11:18) eles tinham divisões tão profundas que levavam a que “quando vos reunis no mesmo lugar, não é a Ceia do Senhor que comeis” (11:20). Isso deixa claro que a razão principal para os cultos (ou encontros) era comer a Ceia do Senhor. Lamentavelmente, os abusos na Ceia foram de tal monta que ela deixou de ser a Ceia do Senhor, não obstante eles continuarem a ser reunir todas as semanas para celebrá-la. A terceira e última referência à razão para uma assembléia é encontrada em I Coríntios 11:33: “quando vos reunis para comer, esperai uns pelos outros”. Como dito antes, isso demonstra que o motivo para estar juntos era “comer”. Como se pode comprovar, além da razão que encontramos, não há nenhuma outra nas Escrituras, para as reuniões semanais regulares da igreja.

A comunhão e o encorajamento que cada membro experimenta nesses encontros é tremendo! É o equivalente cristão ao bar da vizinhança. É a verdadeira feliz refeição ou a “happy hour”. É o momento que Deus usa para gerar unidade no corpo da igreja. Esse aspecto das assembléias não pode ser acelerado ou substituído. Certamente é proveitoso que existam momentos, de que fala I Coríntios 14, de interativa explanação da Palavra, louvor, canto, testemunhos e orações – mas que não sejam em prejuízo da Ceia do Senhor semanal!

 

Considerações Práticas

Praticar hoje a Ceia do Senhor como uma refeição verdadeira é oferecer à igreja uma grande benção. Vejamos algumas considerações práticas sobre o que fazer para organizar uma.

Atitude – Certifique-se de que a igreja entenda que a Ceia do Senhor é o principal propósito da reunião semanal. Ela não é um opcional ou secundário tipo de “louvor”. Mesmo que uma igreja realize apenas a Ceia do Senhor certa semana, ela preencheu o principal objetivo para a existência daquela reunião.

Alimentos - Até onde possível, faça com que todos assumam o propósito de se contentarem com o que houver sido trazido. Isso faz da administração dos alimentos uma tarefa bem mais simples. Creia na soberania de Deus! Em dez anos que fazemos isso em nossa igreja, houve apenas um domingo em que todos trouxeram apenas sobremesas. Ainda assim, resolvemos o “problema”, simplesmente encomendando pizzas pelo telefone! Superplanejar a refeição pode tirar um bocado do prazer e gerar muito trabalho. A única coisa que é planejada é quem vai fornecer o pão e o fruto da vinha. Normalmente, a família em cuja casa está sendo realizada a reunião oferece isso para a igreja.

Ofertas – Desde que a celebração da ceia é um padrão do Novo Testamento e algo importante para a vida de uma igreja funcionando adequadamente, o dinheiro gasto por uma família em alimentos para oferecer aos demais é considerado uma oferta legítima. Ao invés de simplesmente colocar uma oferta no local de coleta cada semana, vá até o supermercado e compre o melhor que você puder e ofereça tudo na Ceia como uma oferta de sacrifício!

Limpeza - Para facilitar a limpeza, você pode considerar o uso de pratos de plástico e guardanapos de papel. Na nossa igreja usamos garfos e copos plásticos, que precisam ser lavados, mas é porque algumas pessoas descuidadamente lançam fora seus garfos junto com os restos de comida. Então, é preferível que joguem fora garfos plásticos do que garfos metálicos. Para evitar sujeira com os derramamentos de comida, a família que hospeda a reunião fornece, para os pratos, apoios de vime ou plástico, que podem ser reutilizados e não precisam ser lavados sempre.  

Logística – No tempo do calor, é mais apropriado comer ao ar livre, à sombra de um abrigo para carros ou coberto no quintal. Comida e bebida derramadas é inevitável e limpar tudo é muito mais fácil quando fora da casa. Uma grande mesa dobrável pode ser colocada onde necessário e guardada depois da reunião. No tempo frio, quando comemos dentro de casa, pense em cobrir os móveis estofados com um plástico e tecido. Desde que as crianças costumam mesmo fazer sua bagunça, reserve um lugar só para elas à mesa e insista em que elas o utilizem!

O pão e o fruto da vinha - Alguns acham que comer o pão e tomar do copo antes da refeição torna esse ato muito separado do restante da atividade. Seria como se a Ceia do Senhor fosse o pão e o vinho (ou suco de uva) e o restante fosse apenas uma refeição comum. Para adiantar-se a essa falsa dicotomia, tente colocar o copo e o pão na mesa com os outros alimentos da Ceia do Senhor. Os dois elementos podem ser mencionados e introduzidos na oração de abertura do culto e novamente referidos na oração de agradecimento, antes de começarem a comer. Assim, os presentes podem se servir deles ao passarem na fila para se servirem. A forma de como fazer isso é de livre escolha de cada igreja.

O pão deve ser sem fermento e a bebida deve ser vinho? Os judeus comem pão asmo na ceia da Páscoa para simbolizar a rapidez com que Deus os tirou do Egito. Certamente Jesus usou pão sem fermento na sua última Ceia. Entretanto, nada é dito no Novo Testamento quanto ao uso de pão asmo na Ceia do Senhor das igrejas gentílicas. Embora às vezes, no Novo Testamento, o fermento seja associado ao pecado (I Coríntios 5:6-8), ele também é empregado para representar o reino de Deus (Mateus 13:33)! Como vemos, isso é uma questão de livre escolha. Com relação ao vinho, é claro em I Coríntios 11 que o vinho foi usado na Ceia do Senhor (alguns ficaram bêbados). Entretanto, nenhuma razão clara é oferecida nas Escrituras para que se faça assim (porém, considere Gênesis 27:28, Isaias 25:6-9 e Romanos 14:21). Como no caso do pão, esta também deve ser uma livre escolha dos participantes do ato.

Não convertidos – Podem os não convertidos serem admitidos a participar da Ceia do Senhor? A Ceia, como ato sagrado, como refeição pactual, tem significado apenas para os crentes. Para os incrédulos, ela é meramente uma refeição. Está claro em I Coríntios 14:23-25 que não crentes ocasionalmente participam dos cultos. Eles ficam com fome da mesma forma que os crentes – então, convide-os também para comer. Ame-os, como fez Jesus! O risco de tomar a Ceia do Senhor de uma maneira incorreta aplica-se apenas aos crentes (I Coríntios 11:27-32).

A respeito do copo e do pão, se uma criança não crente deseja tomar do suco de uva, por gostar dessa bebida, tudo bem. Porém, se os pais propositadamente oferecem o suco à criança não convertida, como um ato religioso, então essa será uma violação dos princípios da Santa Ceia. Isso seria um erro idêntico ao do batismo infantil.

Pastor ordenado - Algumas igrejas tradicionais entendem que apenas um pastor ordenado pode oficiar à mesa do Senhor. Isso é evidentemente uma distorção vinda do catolicismo romano. O Novo Testamento não faz essa exigência.

 

Conclusão   

Agora que a forma da Ceia do Senhor no Novo Testamento é conhecida, a questão seguinte com que se deparam os crentes de hoje diz respeito às intenções do Senhor para com as igrejas posteriores ao primeiro século. Desejou o Senhor que Seu povo celebrasse a Ceia da mesma forma com que era tomada no tempo dos apóstolos? Ou seria esse assunto indiferente para Ele? Teríamos a liberdade de nos desviar da forma original da Ceia, que era uma real e completa refeição? Qual a razão de alguém querer se apartar da maneira usada por Cristo e Seus apóstolos de tomarem a Ceia? Os apóstolos ficavam muito satisfeitos quando as igrejas mantinham as tradições (I Coríntios 11:2) e inclusive ordenavam que eles assim o fizessem (2 Timóteo 2:15).

Para resumir tudo o que afirmamos, a Ceia do Senhor é o principal propósito para que a igreja se reúna em todos os Dias do Senhor. Comer a refeição completa da Ceia tipifica a ceia do Cordeiro e é sua antevisão. Ela é para ser compartilhada como um banquete, numa atmosfera feliz e alegre e não num espírito sombrio e fúnebre. O principal benefício da Ceia como um banquete é a comunhão e a amizade que cada membro experimenta. Nesse contexto de refeição verdadeira, deve existir um copo e um pão do qual todos participarão. Isso é o simbolismo do corpo e do sangue de Jesus e serve para relembra-Lo de Sua promessa de retornar. O pão único é usado não só para simbolizar a unidade do corpo dos crentes, mas também em razão de Deus continuar a usá-lo para gerar unidade nesse mesmo corpo.

                                                                                                                                                                                                Tradução de Otto Amaral

(*) Steve Atkerson - Steve e sua esposa Sandra vivem em Atlanta (Geórgia, EUA) e educam em casa seus três filhos. Steve é graduado Mestre em Divindade pelo Mid America Baptist Theological Seminary e serviu por sete anos como pastor da Igreja Batista do Sul. Ele demitiu-se em 1990 para trabalhar com as igrejas domiciliares, as igrejas do Novo Testamento. Esteve é agora ancião de duas dessas igrejas, professor, palestrante itinerante e presidente da New Testament Restoration Foundation (Fundação para Restauração do Novo Testamento).

 
 
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      Atualização de 15 de setembro -
    LEIA O NOVO ARTIGO:

   - QUEM MATOU JESUS?

    Interessante estudo sobre as pessoas e
     as entidades que, no plano terreal, foram
     instrumentos na concretização do drama
     do Calvário.
     Análise bíblica e jurídica do processo for-
     jado contra Jesus para levá-lo à morte.
     E se Ele voltasse hoje, nas mesmas con-
     dições, como seria?
     Quem quereria matá-lo de novo?

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